Samantha Machado lança o primeiro álbum: ‘Multifacetada em Lapidação Constante’

“Multifacetada em Lapidação Constante” é o primeiro álbum da artista em parceria com a Warner Music Brasil
Desde que o cantor James Brown deu a régua e o compasso para a soul music e o funk com “I Got You (I Feel Good)”, em 1965, que os artistas brasileiros se aprimoraram a assimilar essa sonoridade, misturá-la com os gêneros locais e criar sua própria versão de música dançante. Tim Maia e Banda Black Rio, nos anos 70, cruzaram o estilo americano com o samba, o baião e o forró. O R&B romântico de artistas como Usher e Boyz II Men temperou o movimento do pagode dos anos 90. Pois a cantora paulistana Samantha Machado é o novo nome da constante evolução da música preta brasileira. “MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE”, sigla para “Multifacetada em Lapidação Constante”, seu disco de estreia que desembarca esta semana nas lojas e plataformas de streaming, o qual reúne o que existe de  mais contemporâneo no soul, no hip hop e no eletrônico, mas com a preocupação de  manter uma identidade nacional.
 
Antes de discorrermos sobre as qualidades do álbum, vamos às apresentações. Samantha, 26 anos, é natural de São Paulo, mãe de Ísis (que ocasionalmente atua como sua parceira) e iniciou sua trajetória no universo eletrônico. Três anos atrás, ela emplacou “Portal do Universo” ao lado do DJ Chapeleiro. A canção se tornou um hit nas pistas e fez com que  Samantha se tornasse um nome de ponta. E que nome: a tríade formada por “Nunca Vai Mudar”, “Peter Pan” e “Nave Espacial” passou das 50 milhões de execuções em plataformas como Spotify e despertou a atenção da gravadora Warner Music Brasil, que veio a contratá-la em outubro de 2019. O primeiro fruto dessa colaboração é “Multifacetada em Lapidação Constante” (em nome da praticidade, vamos dispensar o nome em código), que foi precedido pelo single Pirata. A ideia inicial era dividir o álbum em três EPs de cinco faixas cada, mas no final optaram em lançá-lo por inteiro.
 
A decisão de apresentar “Multifacetada em Lapidação Constante” se mostra acertada. Escutado por inteiro, o álbum soa como uma biografia musical da cantora e rapper. Suas quinze faixas trazem três estilos de letras. O primeiro, mais predominante, é o romântico, mas no estilo Samantha, que passa longe do adocicado, porque ela é quem define os termos do relacionamento. A posição está explícita no primeiro single, “Pirata”, no qual alerta sobre os perigos de sair atrás de uma aventura (ainda que seja tentador), e “Jeito Difícil”, no qual avisa o namorado de que tem de se adaptar às regras dela – por mais que ele as refute. “Questão de Tempo”, “Instagram”, “Controle” e “Coisa Séria” são outras produções nas quais o amor dá o tom.
 
O segundo tema desenvolvido em “Multifacetada em Lapidação Constante” é o das canções de combate. São letras que defendem uma postura mais assertiva para enfrentar as dificuldades que a vida impõe. “Luta”, que traz o refrão “continue a batalhar e agradeça por estar vivo” e “Humanos” (“somos humanos, tentando acertar”, apregoa esse belo reggae) são os exemplos mais expressivos desse estilo de verso, ao lado de “Constelações” (“Vai ver que um desenho no céu/ Formou o destino a seguir/ Lembrou qual era o meu papel/ E agora me resta cumprir”) e “Eles Querem”. A última divisão do álbum está na chamada postura afirmativa, que até poderia ser incluída nas duas categorias anteriores, porém está mais relacionada à autoestima do que ao romantismo ou algum tipo de batalha. Porque, como ela mesmo defende na introdução de “Coisa Séria”, “se eu não fosse música seria psicanalista”. “Cigana”, “Boneca de Lata” e “Semente” (na qual diz “o plantio é livre, mas a colheita não”) fazem parte dessa categoria.

“Multifacetada em Lapidação Constante” é o primeiro trabalho por inteiro de Cayo Chaves, ou melhor, CHVZ, um paulistano de 27 anos que iniciou a parceria com Samantha no EP “Ponta do Iceberg”, de 2019. É coisa de veterano, uma produção moderna, que alterna       guitarras do neo-soul (“Coisa Séria”) com violões (“Jeito Difícil”, “Luta”), arranjos que remetem às músicas nordestina e latina (“Cigana” e “Semente”). Há que se destacar, ainda, as participações – ou featuring, como se usa nos dias de hoje – de SóCiro (“Pirata”), Leo Rocatto (“Questão de Tempo”), Kweller (“Instagram”), Diomedes Chinaski (“Eles Querem”) e Guhhl (“Jeito Difícil”), que imprimiram suas marcas nas ideias de Samantha. “Multifacetada em Lapidação Constante” é um disco de soul brasileiro, de categoria internacional.

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