HOLIDAY NICE prova que o hardcore do interior paulista não precisa de permissão para existir

Fél, Bacon e Kauê provam, mais uma vez, que fazer hardcore no interior de São Paulo é menos sobre estrutura e mais sobre não parar. 

Uma banda da cidade de Itu, no interior de São Paulo, faz hardcore há mais de 15 anos sem precisar de ninguém. Sem gravadora grande, sem assessoria de imprensa corporativa, sem o escudo de um nome famoso por trás. Apenas o som viceral, a convicção e a filosofia do faça-você-mesmo como modo de vida. Essa banda é a Holiday Nice. E em 2025, com o lançamento do EP homônimo, o trio voltou a lembrar por que esse tipo de projeto ainda importante.

Formado em 2008 por amigos que, nas próprias palavras deles, “só querem fazer um som sem compromisso”, a Holiday Nice carrega desde o nome uma ironia típica do underground: alegria performática, energia crua e um sotaque de quem cresceu longe da capital, mas nunca se sentiu menor por isso. Fél no baixo, Bacon na guitarra e Kauê na bateria formam hoje o núcleo do trio, que manteve viva a chamada mesmo em anos de silêncio discográfico.

A trajetória da banda até o EP atual é um roteiro de resistência. Entre 2011 e 2015, a Holiday Nice lançou quatro trabalhos em ritmo de produção que qualquer banda independente iria abaixo: “Reis do Pop” (2011), “Two Girls…” (2012), “Risca Faca” (2013) e “Tenebration Night” (2015). Mais de 30 músicas autorais, videoclipes rodados sem orçamento hollywoodiano e shows espalhados pelo interior paulista, Rio de Janeiro e Brasília. O Bandcamp da banda registra ainda trabalhos que remontam a 2008 e 2009, o que mostra que a produtividade sempre foi uma marca registrada do grupo. 

O que a Holiday Nice faz não é inovador no sentido de desenvolver algo completamente inédito. No entanto, esse não é o foco principal. O hardcore nunca teve a intenção de ser original por si só. Trata-se de preservar a autenticidade dentro de uma tradição. E dentro dessa tradição, o interior paulista tem uma história longa e rica. Itu é uma cidade com raízes no punk desde os anos 90, com bandas que ajudaram a construir a cena antes de qualquer portal de música dar atenção a isso. A Holiday Nice entra nessa linhagem sem forçar, só pelo peso natural do que toca.

O EP de 2025 marca uma virada aberta na sonoridade da banda. As cinco novas composições chegam mais densas, mais elaboradas, sem abrir mão do “rock pauleira” que sempre define o grupo. É como se o tempo de amadurecimento entre os lançamentos anteriores e agora tivesse resultado em algo mais focado, com menos pressa de provar alguma coisa e mais confiança em deixar o som falar por si. Três videoclipes já foram lançados como parte da divulgação do EP, e outros dois ainda estão previstos para completar o ciclo.

Com mais de 40 músicas autorais e sete videoclipes produzidos de forma independente ao longo da carreira, a Holiday Nice representa algo que o rock brasileiro precisa valorizar mais: bandas que não esperam a indústria chamá-las pelo nome. Que fazem, gravam, lançam e tocam porque é o que sabem fazer. O circuito subterrâneo do interior de São Paulo é alimentado por esse tipo de energia há décadas. Enquanto houver bandas como o Holiday Nice, ele não vai acabar.

Sharing is caring!

Deixe um comentário