Primeiro rapper gay assumido no Rio, Jeza da Pedra lança vídeo ao vivo

Primeiro rapper gay assumido no Rio, Jeza da Pedra lança vídeo ao vivo

Fotos créditos Rodrigo Somba

Unindo humor e crítica, Jeza da Pedra recria rap carioca ousando em forma e estilo
Rapper que une soul e afrobeat é o primeiro gay assumido da cena da cidade

Jeza de Pedra é uma entidade. Moldando a sua realidade com humor, crítica e coragem, o rapper une pontos de umbanda, afrobeat e soul com os sons do subúrbio carioca em uma mistura única e brasileiríssima. Com pouco mais de 3 anos de carreira, Jeza já dividiu palco com nomes como Rico Dalasam, Linn da Quebrada e Baco Exú do Blues. Agora, procura atingir um número maior de pessoas com uma série de músicas ao vivo.

“A minha necessidade de ficcionalizar a escassez da realidade e transformá-la em matéria onírica é o que me inspira a criar. A necessidade que eu tenho de manter a minha voz ecoando no tempo a despeito da finitude da vida. Mais especificamente, porque não tem nada na vida que eu me identifique mais do que fazer o que eu faço”, explica Jeza.

Unindo uma jornada que vai das comunidades cariocas até uma formação em Letras que passa pela conceituada Sorbonne, em Paris, a persona artística Jeza da Pedra veio da necessidade de Jonatas Rodrigues expressar uma voz diferente que nasceu dessa jornada única. Filho de mãe retirante nordestina e bisneto de escravos mineiros alforriados, Jeza nasceu e foi criado no Complexo da Pedreira, em Costa Barros. Foi no bairro da Zona Norte do Rio, que possui o segundo pior IDH da cidade, que passou boa parte da infância e adolescência entre igrejas neopentencostais, bailes funk e rodas de samba. Essa combinação que soa incomum é a base da criação musical de Jeza.

“Minha formação musical começou durante a infância, quando minha mãe ou avó me levavam à igreja ou escutavam louvores na vitrola de casa; no samba e pagode que meu pai ouvia nas jukebox dos botequins. A família do meu pai foi uma forte influência em termos de música de preto… Tim Maia, Jorge Ben, Alcione e todos os grandes sambistas e grupos de pagode de 80-90”, explica. “Até os 12 anos, eu ouvia de tudo, depois entrei numa de rock e fiquei meio besta: comecei a aprender violão lendo revista de cifras, queria ter banda, essas coisas. Com o decorrer do tempo, eu voltei a escutar um pouco de tudo novamente, dessa vez pirando mais em música brasileira. Desde então, a música se tornou algo fundamental inclusive para minha visão de mundo”.

Aos 14 anos, pouco depois de assumir a homossexualidade, participou do projeto “Adolescente no Mundo do Trabalho”, da ONG carmelitana São Martinho, que possibilitou o seu ingresso na Escola de Música Villa Lobos, onde estudou música brasileira e teoria musical. Nesses últimos 15 anos, Jeza tentou várias empreitadas musicais, do pagode ao white metal, mas sem achar sua voz. Foi ao adotar o rap e subverter o funk no que chama de “anarcofunk” que achou seu caminho.

Em junho desse ano, seu primeiro EP foi lançado. Intitulado “Pagofunk Iluminati”, o trabalho foi produzido por Juan Peçanha e mixado e masterizado por Cairê Rego, da banda Baleia, com quem Jeza trabalha em novos singles.

“A ideia de ordens secretas, simbologia e ocultismos, mensagens subliminares protagonizadas em arte/álbuns de ícones pop sempre me fascinaram. O meu Pagofunk é a franco-maçonaria da favela, é o livre pensamento periférico que regula a nova ordem mundial secretamente. O Pagofunk é a minha singela tentativa de instaurar uma Roma Negra através de gambiarras sonoras”, se diverte Jeza.

O show de lançamento do EP, no Coletivo Éden (Centro do Rio) contou com participação da orquestra Afrojazz e foi registrado em áudio e vídeo e agora começa a ser lançado para formar um EP ao vivo apresentando o trabalho da Jeza para um público novo. O projeto tem direção artística de Luana Moussallem, Tarek Naba’a e Eduardo Santana (AfroJazz) e tinha a assinatura musical de Eduardo Santana e Cairê Rego (Baleia).

A primeira faixa lançada é “Abafar Loló”, uma bem-humorada canção que Jeza descreve como uma mistura de “Realce”,  de Gilberto Gil, com canções que falam abertamente sobre drogas no cancioneiro nacional – como “Lança Perfume”, de Rita Lee, e “Há Tempos”, de Renato Russo. Na versão do EP, isso fica mais evidente ainda pelo uso de um sample de uma canção da cultuada banda Dorgas. Ao vivo, com o arranjo do Afrojazz, a música virou um afrobeat moderno com pitadas de R&B, com uso estético de autotunes e influência do afrofuturismo. Esse caldeirão de referências destaca a voz de Jeza na cena cultural carioca e pode antecipar boas novidades para 2018.

“O artista como bom receptador de frequências do futuro não pode dar mole pra preceitos morais pautados em um tradicionalismo patriarcalista judaico-cristão branco e tacanho. Ao meu ver, um dos papéis da arte é evidenciar e problematizar tudo aquilo que se refere à matéria vida e analisá-la à luz do seu próprio tempo, ela deve instigar o indivíduo a olhar ou se relacionar com algo ou alguém ou com ‘o estar no mundo’ de maneira diferente da cotidiana”, conta o artista, que também é tradutor, escritor e poeta com trabalhos publicados em zines e revistas de arte no Brasil.

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Rociclei

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