JU KOSSO lança “SOFISALMA” e abre uma nova fase na carreira: rock autoral, psicanálise ea coragem de se reapresentar

Foto: Moa Cunha

Depois de 15 anos como vocalista de um dos grupos mais cultos do rock independente brasileiro, Ju Kosso aparece agora com seu próprio nome escrito em letras garrafais. Não como curiosidade, não como derivação de uma trajetória maior. Como protagonista, sem mediação.

O single “Sofisalma” chegou às plataformas em 20 de março, lançado pela Marã Música, e é a primeira faixa autoral de uma sequência que a cantora e compositora de Jundiaí (SP) vem preparando com calma e intenção. O single não é só uma música. É uma declaração de que Ju Kosso tem coisas a dizer que não cabiam em nenhuma outra voz que não a sua.

A história de Ju com a música é longa. Tudo começou com a aprovação nos testes para o grupo infantil A Patotinha, gravando pelo LP pela gravadora RGE em 1995, com passagens em programas como Raul Gil, Clube do Bolinha e Amaury Jr. Depois veio a banda Coyote, em 1997, com três CDs autorais, prêmios e festivais. Uma noite paulistana, casamentos, formaturas, shows de todo tipo. Uma vida inteira dentro da música antes de chegar onde todos a conhecer.

Em 2008, ela passou a integrar as Velhas Virgens, grupo fundado em 1986 que se tornou uma das mais respeitadas bandas independentes do Brasil, conhecida pelas letras irreverentes e pela postura visceralmente alternativa. Por 15 anos, Ju foi a voz feminina da banda. Um papel que ela exerce com presença de palco inegável e que rende frutos concretos: em 2021, o álbum “O Bar Me Chama” foi indicado ao Grammy Latino de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa. No meio desse período, ainda participou do disco “Cotidiano Confuso”, projeto da Banda Estranhos no Paraíso liderado pelo guitarrista das próprias Velhas, Alexandre Cavalo.

Em 2023, Ju tomou a decisão de deixar a banda por questões pessoais. E foi a partir daí que ela começou a escavar o que tinha sido represado dentro de si por anos.

“Sofisalma” é o resultado desse processo. Inspirada no conceito histórico dos sofistas, pensadores que venciam debates por meio da retórica e da manipulação de argumentos, a música discute o colapso das aparências e das personas idealizadas. Ju explica o raciocínio por trás da faixa sem economizar nas palavras: os sofistas do século V venciam debates não dizendo verdades. A música fala dessa intenção de enganar, de manipular, quando uma pessoa já não consegue mais se sustentar como suas próprias personas. É o colapso de figuras impecáveis ​​que sustentam uma vida perfeita só para manter uma imagem. No fundo, é uma alma gritando diante de um autoengano.

Sonoramente, a faixa foi gravada em Los Angeles e transita entre o rock e o pop, com peso, reprodução e estética densa que remete a bandas como Rammstein e Nine Inch Nails, mas sem perder a musicalidade melódica que marcou a formação do artista. É uma combinação que faz sentido quando se entende de onde ela vem: criada ouvindo Led Zeppelin, Kiss e Black Sabbath por influência dos irmãos mais velhos, mas também formada no rock brasileiro da virada dos anos 80 para 90, com Barão Vermelho, Titãs e os Paralamas no radar. E com a referência de voz de Elis Regina e Cássia Eller sempre presente como régua de verdade interpretativa.

O single conta com participação especial no baixo de Felipe Andreoli, músico da banda Angra, uma parceria que reforça o cuidado com a qualidade do projeto foi construído.

O clipe, lançado em 1º de abril com direção de Arnaldo Belotto, traz uma estética inspirada em histórias em quadrinhos e uma construção simbólica baseada em arquétipos. Ju comanda o conceito visual com precisão: três personagens representam diferentes formas de existir e se escondem no mundo: um moralista rígido que esconde desejos opostos ao discurso que prega, um narcisista carismático que sustenta uma felicidade artificial e uma observadora, figura central que enxerga o que os outros recusam a ver.

O que chama atenção em “Sofisalma” não é apenas a música em si, mas o que ela representa como gesto. Após deixar as Velhas Virgens, Ju Kosso não se atrasou na música, mas ampliou seus horizontes ao se dedicar também à psicanálise, área que surge como extensão de sua sensibilidade artística. É uma combinação que, na prática, deixa a faixa com uma camada a mais: é rock, mas é também escuta. É peso sonoro e é, ao mesmo tempo, olhar clínico sobre a condição humana.

A próprio artista define “Sofisalma” como resultado de um transbordamento criativo, após um período em que percebeu sua expressão artística bloqueada. Há algo de lançamento muito concreto no lançamento. E ela não disfarça: estou em um momento muito livre artisticamente, sem prazo, sem pressão. Não importa se está na moda, se cabe ou se pode parecer irrelevante. Eu não tenho mais nada a perder.

Tem mais coisa vinda por aí. Segundo a própria Ju, outras músicas já estão prontas, em fase de pré-produção, e o trabalho segue sendo construído com a mesma lógica visceral que deu origem a “Sofisalma”. Para quem acompanhou os 15 anos dela nas Velhas Virgens, esse é o começo de um capítulo que vale muito a pena acompanhar.

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