Repper Fiell fala sobre seu novo videoclipe “Poema Resistir é preciso”

PP – Você já havia lançado esse poema na internet em áudio. O que o motivou a relança-ló como vídeo?

Fiell – O áudio e o vídeo são duas ferramentas de comunicação poderosa. Unido as duas em Audiovisual fica muito mais forte. Desde principio eu pensei  lançar o poema Resistir é Preciso só em audiovisual. Sabemos as dificuldades em lançar vídeo clipe. Precisa de muita força de trabalho. Por isso lancei primeiro só em áudio. Depois fiz o roteiro e convidei o meu parceiro cineasta Bruno Thomassin que é Francês e trabalha comigo desde 2004. Foi com Bruno que fiz o curta metragem “788”

O motivo para lançar o vídeo clipe, é a linguagem. Nosso povo trabalhador  não é incentivado pelo poder publico a ler  livro. Sabemos por que  essa perversidade é exercida pelo estado. Para poder continuar a dominação e a desigualdade de classes.

Por tanto, nossa sociedade é de imagens. Esse vídeo fala muita coisa em 4:45 min. Mostra toda contradição e mentira da mídia empresarial burguesa sobre o morro Santa Marta como favela modelo.

PP – Como você mesmo diz no poema há moradores que aceitam essa tal pacificação e outros que não contestam, mas há também os que não se calam e não se conformam como você.  Como está sendo a relação dos que resistem com a UPP? E como tem sido resistir contra a força do capital?

Fiell – Quero deixar claro que minha luta não é contra o ser humano que está por traz da farda, seja da UPP ou outra policia. Mais sim contra o sistema econômico capitalista que massacra nosso povo trabalhador. E a UPP o projeto, foi pensado por esse sistema. Os policiais só obedecem aos seus superiores, mas se eles parassem para pensar de forma critica, eles mudariam a mira das armas de grosso calibre para seus patrões que os tratam como robôs.

Sofremos há 500 anos todo tipo de opressão. Os primeiro a sofrerem foram os Índios na invasão dos Portugueses e Europeus. Depois os africanos com o trafico humano. Em seguida os quilombos. E hoje os favelados os camponeses.

Ter um senso critico não é tão fácil. Precisamos estudar. Não estudar necessariamente na escola tradicional. Mais estudar dentro da favela ou em outro espaço sobre política. É a política que mudam nossas vidas para melhor ou pior. Quando o projeto da UPP entra no morro Santa Marta, nenhum morador foi consultado. Então isso deixa claro que os políticos, o sistema não consulta o povo para implementar seus projetos.

Quando falo que alguns moradores não aceitam, é porque eu vejo em entrevistas dizendo que hoje está melhor. Eu entendo que hoje aqui no morro Santa Marta não esta tendo mais tiroteio. Mais isso é direito nosso, já que no Brasil não temos uma guerra, e vivemos em democracia.

Eu resisto às mentiras faladas pela mídia para concretizar o projeto mal acabado do governo do estado do Rio de Janeiro. Este vídeo mostra. Mais de R$ 18.542.000,00 milhões foram destinados para a urbanização do local. Tenho certeza, que com este valor o morro Santa Marta, não era para ter ainda moradia sub-humana, barracos de madeira feito com o resto das obras do metro Botafogo em 1981.

Ainda hoje em pleno 2013, todos os moradores do morro Santa Marta, vivem sem receber carta do correio em suas casas. Esse direito nós não temos. Isso é favela modelo? Precisamos exigir nossa cidadania, é isso que eu luto e exijo.

PP – Basta ficar 15 minutos no Santa Marta para ver o número de turistas circulando no território. Essa circulação de turistas trouxe algum beneficio para a favela? Como os moradores lidam com isso?

Fiell – Todo projeto para o morro Santa Marta é executado de cima para baixo. Quando o morador fica sabendo é através da mídia empresarial. O turismo no morro Santa Marta pode ser melhor, se tiver na tutela dos moradores. Hoje em dia, gringos invadem o local, tira foto de crianças sem autorização de imagem e sai do morro sem conhecer a história de luta dessa favela e desse povo trabalhador. Isso é ruim. Sabemos que a mídia internacional faz o convite aos estrangeiros para fazerem incursões nas favelas com UPPs. Só que não informam para esses turistas que aqui tem gente, vida, luta, e direitos. Por isso, alguns moradores do morro Santa Marta, estão se organizando para montar uma organização de turismo comunitário. Acredito que com essa ação de dentro, os turistas podem compreender a sociabilidade do lugar, conhecer ações das instituições do local e poder ajudar se quiserem etc.

PPPegando mais uma passagem de seu poema, a grande mídia  vende uma imagem do Santa Marta como favela modelo. Depois de três anos de pacificação o que você tem a dizer sobre a qualidade de vida dos moradores? E o custo de vida na favela?

Fiell – Deixo claro. Não existe favela modelo. Esse lugar foi conquistado com muita luta e sangue. Sabemos que a palavra tem o poder de mudar o mundo. Eles usam as palavras para favorecerem aos seus interesses. Nós temos que usar as palavras para o nosso favor. Quando falarem em melhoria, temos que analisar como está a qualidade de vida da população. No meu ver ta pior. Ex: Em 2007 quando não tinha UPPs, o aluguel custava em media de R$ 150 reais 200 reais. Hoje pós a midiática pacificação de fuzil, os alugues surtaram para R$ 400 reais e até 600 reais.

Hoje pagamos energia elétrica de forma aleatória. Uns pagam R$ 50 / 100 / 200. Coisa que em 2007, pagávamos R$ 7 reais 20 reais. Agora eu pergunto o salário do trabalhador aumentou?  Não! Como o trabalhador do morro Santa Marta vai resistir esse aumento do custo de vida?

Para se viver no morro santa Marta, uma favela que não tem ruas  e sim escada para todo lado, o morador necessariamente ele tem que se alimentar bem, para poder viver aqui subindo e descendo os degraus. Com esse salário e o aumento do orçamento mensal, com certeza ele não vai viver melhor.

Rapper Fiell

PP – Ao mesmo tempo em que se diz que o Santa Marta foi pacificado o morador é controlado por quem diz trazer a paz. Como é resistir em um território onde a paz é imposta pelo medo?

Fiell – Desde 1920 criações das favelas do Rio de Janeiro, os moradores desses territórios foram hostilizados, criminalizados. Jornais da época intitulavam, enquadravam os favelados como um animal sem alma. Para humanizar esse território onde negros e brancos pobres sem almas vivem, é preciso armas, porradas e ordem.

Não é a toa que aqui na favela só chega ordens. Controle social. Vivemos vigiados por câmeras, armas 24 horas. Para o estado, somos perigosos desumanos e precisamos ser humanizados por quem teve educação, escola e religião. Decidem o que é bom para uma população de aproximadamente 6 mil moradores sem nenhuma participação popular. É muito fácil falar que aqui estamos pacificados e somos modelos.

Precisamos analisar qual é a paz que queremos. Conhecer os projetos que chegam em nome de progresso. Porque PAZ SEM VOZ É MEDO.

Nossa resistência aqui no morro  Santa Marta é de forma pedagógica através da arte revolucionária.

PP – O que mais te motiva a resistir?

Fiell – Sou motivado a resistir pela vida. Sei que podemos viver em um mundo melhor com moradia digna, alimentação de qualidade, respeito e amor. O maior sentimento do revolucionário é  o amor ao próximo.

PP – Deixa uma mensagem final?

Fiell – Que o trabalhador  duvide do  que ver e ouvi.  Conteste, participe de qualquer projeto em nome de progresso em sua favela e cidade.

Qualquer dominação é através a principio das palavras que informa ou desinforma.

Seguimos juntos na luta por uma sociedade igualitária e sem classes.

Repper Fiell.

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