Ratas Rabiosas transforma indignação em hardcore no álbum explosivo “¡Qué Ardan!
Ratas Rabiosas por @felipws_photoss
Subtítulo: Terceiro disco da banda paulistana mergulha em temas como violência de gênero, racismo, violência policial, desigualdade social, fascismo e contradições dentro da própria cena punk.
Há discos que procuram apenas entreter. Outros querem provocar alguma ocorrência. ¡Qué Ardan!, novo trabalho da Ratas Rabiosas, pertence claramente à segunda categoria. Desde os primeiros segundos, o álbum assume o punk como ferramenta de confronto e transformação de indignação, revolta e denúncia em oito faixas curtas, diretas e relacionadas de urgência.
Lançado em 21 de agosto de 2026, o disco chega como um novo capítulo na trajetória da banda paulistana, formada em 2013 e conhecida por fazer do hardcore e do punk veículos para discutir feminismo, racismo, desigualdade e diferentes formas de opressão. A própria discografia mostra essa continuidade. Antes de ¡Qué Ardan!, vieram Sonidos de Combate, de 2018, Guerra Urbana, de 2020, e o lançamento de “Retrocesso”, em 2024.
O que chama atenção no novo trabalho é que a Ratas Rabiosas não tenta suavizar seus argumentos. Ao contrário, o grupo aposta na linguagem agressiva do hardcore para falar de assuntos que continuam atravessando o cotidiano brasileiro e mundial.
“Cenários de Guerra”, faixa de abertura, estabelece imediatamente o tom. O hardcore mira o genocídio em Gaza pesado e transforma a violência da guerra em matéria-prima para uma música que não pretende oferecer conforto. A sensação é de urgência, como se o barulho das guitarras servisse justamente para evitar que uma tragédia se normalizasse.
Em “Retrocesso”, a banda volta os olhos para os direitos das mulheres e para o uso de discursos religiosos e moralistas como instrumentos de controle. É uma discussão que dialoga diretamente com a identidade feminista construída pelas Ratas Rabiosas ao longo dos anos.
“Privilégios” amplia o campo de batalha. Classe, raça, dinheiro e exploração aparecem em uma faixa que questiona quem realmente se beneficia das estruturas sociais e quem continua pagando a conta. O discurso é conhecido dentro do punk, mas ganha força quando não fica restrito ao slogan e aponta para situações concretas de desigualdade.
A crítica à violência do Estado aparece em “Próxima Vítima”. Com um punk rock mais direto, a faixa aborda racismo estrutural, abuso de poder e violência policial nas periferias. É um tema que já fazia parte do repertório da banda e que aqui reaparece com a mesma disposição para confrontar uma realidade em que determinados corpos continuam sendo os principais alvos da violência.
“Deserto da Saúde Mental” desloca a discussão para as ruas e questiona a maneira como pessoas em situação de uso problemático de drogas são tratadas. Em vez de enxergar a questão apenas pelo prisma da segurança ou da estética urbana,a música chama atenção para o abandono e para a dimensão humana de um problema que costuma ser empurrado para longe dos olhos da sociedade.
A faixa “Patriotário”, como aparece oficialmente na tracklist do álbum, parte de episódios que marcaram o bolsonarismo para construir uma crítica ao extremismo político. O humor ácido funciona como recurso, mas por trás da ironia existe uma preocupação bastante significativa: o crescimento de discursos autoritários e a permanência de uma política cultural baseada no confronto e na intolerância.
Já “¡Qué Ardan!”, que dá nome ao álbum, talvez seja uma das faixas mais importantes para entender a proposta do disco. A música aponta para uma contradição existente dentro da própria esquerda e, principalmente, dentro de determinados setores da cena alternativa: homens que defendem discursos libertários e progressistas em público, mas reproduzem machismo, assédio e relações de poder no cotidiano.
É justamente aí que o álbum ganha uma dimensão interessante. A Ratas Rabiosas não se limita a apontar o dedo para aquilo que acontece fora do punk. A banda também questiona o próprio ambiente em que está inserido. O recado é simples: não adianta levantar bandeiras contra a opressão no palco e reproduzir nas relações pessoais.
O encerramento fica por conta de “Se Eles estão Tristes, Nós Estamos Felizes”, uma espécie de declaração final de princípios. Antifascismo, liberdade, organização e resistência aparecem como elementos centrais de uma música que recupera o espírito combativo do punk.
Musicalmente, ¡Qué Ardan! não tente reinventar o hardcore. E nem precisa. A força do disco é justamente a capacidade de usar uma linguagem conhecida para atualizar conflitos que continuam presentes. As músicas são compactas, objetivas e objetivas, características que combinam com letras que não querem deixar espaço para muita distração.
A produção do álbum ficou por conta de Fábio Hardcaos, responsável também pela gravação e masterização. O trabalho foi registrado no 147 StudioBar, Porão Punk e Hardcaos House. O disco ainda conta com participações de Fábio Godoy, Amanda Paim, Sabrina Correia e Kéu.
Mais do que um álbum de protesto, ¡Qué Ardan! funciona como um documento de posicionamento. A Ratas Rabiosas sabe de onde fala, conhece a tradição política do punk e não demonstra interesse em transformar sua música em produto neutro.
Em tempos de discursos cada vez mais agressivos contra direitos sociais, mulheres, populações negras e grupos historicamente marginalizados, a banda escolhe continuar fazendo aquilo que o punk sempre soube fazer melhor: incomodar.
¡Qué Ardan! não foi feito para ouvir braços cruzados. É um disco que pede fato. E, principalmente, lembra que a resistência não termina quando a música acaba.