Calangos da Gota Serena faz o rock nordestino explodir em cores no sertão paraibano

São José de Piranhas – PB Por muitos anos São José de Piranhas ficou longe dos holofotes do rock nacional. Em 2025, a paisagem sonora do sertão ganhou um novo eixo com o lançamento do primeiro álbum dos Calangos da Gota Serena, banda que mistura com uma naturalidade quase instintiva a fúria do rock com as tradições rítmicas e poéticas do Nordeste.

O disco homônimo, lançado em junho de 2025, chega como um manifesto de identidade e coragem musical. São doze faixas que respiram o espírito de uma geração que não se contenta em reproduzir fórmulas prontas. Onze são composições próprias, assinadas pelo grupo, e uma releitura de um clássico de Diá de Jatobá, nome respeitado do forró sertanejo, reforçando o diálogo profundo entre gêneros e territórios.

A história da banda é tão orgânica quanto suas canções. Formada por quatro amigos com longa convivência no interior da Paraíba, Calangos da Gota Serena poderia ter ficado no nível das jam sessions de fim de tarde. Mas a paixão pela música, unida à vontade de dizer algo próprio, impulsionou o grupo a transformar riffs e versos em um projeto consistente. O disco foi financiado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, com apoio direto da Prefeitura e da Secretaria de Cultura de São José de Piranhas — um exemplo de como políticas públicas bem aplicadas podem fazer brotar cultura genuína fora dos grandes centros.

No cerne do som está Alcides Júnior (guitarra e voz), acompanhado por Filipe Alves (violão e voz), Maurício Batista (bateria e voz) e Petrônio Ribeiro (baixo e voz). O quarteto ainda contou com participações especiais, como Auceli Filho na guitarra e Neném Amaro na sanfona, essa última inserção decisiva para que o álbum respirasse os ares nordestinos que carrega no DNA.

O repertório transita entre rock, baião e brega com a leveza de quem cresceu ouvindo tudo isso junto. Em faixas como Eu Queria Ser Igual a Mim, a banda expõe um lirismo direto, quase confessionário, que conversa com uma cena rock genuína e sem afetações. Outras, como Homenagem a São José de Piranhas, flertam com as raízes regionais, fazendo o ouvinte sentir que ali não há apropriação estética, mas sim uma síntese inevitável da cultura local com a guitarra elétrica em punho.

A produção é crua na medida certa, sem polimento excessivo, o que traduz bem a urgência e a energia de um quarteto que quer ser ouvido adiante seja tocando em bares improvisados no sertão ou nas plataformas digitais, onde o álbum já está disponível.

Se no rock tradicional a guitarra é o centro nervoso da composição, Calangos da Gota Serena amplia esse centro, integrando ritmos e letras que falam de pertencimento, existências locais e a vontade de experimentar sem medo de errar. O resultado é um álbum que não só representa uma banda com potencial, mas uma cena que se recusa a ser invisível.

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