“EU NÃO SOU UMA MULHER?”

 
Por Tássia Seabra
 
O 8 de março é uma data que carrega diversas controvérsias. Não existe uma concordância entre os movimentos sobre a história do dia exato que originou a data. Uma delas é o trágico incêndio na fábrica “Triangle Shirtwaist”, na cidade de Nova York, incidente que matou 146 pessoas; Entre elas, 125 mulheres e 21 homens, com idades entre 13 e 23 anos. Porém, afirma-se que a data correta do incêndio foi 25 de março de 1911 (o  8 de março de 1911 foi um domingo), uma data improvável para um motim de greve. A acadêmica Eva Baly considera “muito improvável que o sacrifício das trabalhadoras da Triagle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Embora que incêndio desse tipo no início do séculos eram tidos como comuns. 
 
O processo de instituição de um dia internacional da mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e europeias desde algum tempo antes e foi aprovado com a proposta da socialista Alemã Clara Zetkin,na primeira conferência internacional de mulheres no ano de 1910. No início de 1917 ocorreram diversas manifestações na Rússia, de trabalhadoras. Os protestos foram brutalmente reprimidos precipitando a revolução de 1917. A data da principal manifestação, foi 8 de março de 1917,  instituída como Dia Internacional da mulher pelo movimento internacional socialista.
 
Após o ano de 1945 a data virou elemento de propaganda. O dia da mulher tornou-se estereotipada. A cada dia 8 de março as mulheres recebiam uma flor  dos filhos, do marido ou do chefe (quando podia trabalhar fora, e, vejamos que as coisas não mudaram tanto assim). Foi no ano de 1975 que foi designado pela ONU o 8 de março como o Dia Internacional Da Mulher, após o resgate da data por meio dos movimentos feministas que ressurgiram na década de 70.
 
Em toda essa pesquisa que está disponível na internet e que eu resumi pra vocês, todas as referências são de mulheres ativistas brancas. Simone Beauvoir e todas as abolicionistas e feministas brancas, as quais fomos apresentadas no resgate do feminismo nos anos 70, quando saíram de suas casas e foram  às ruas lutar por direitos ao voto, salários iguais, é importante lembrar que quem ficava em suas casas cuidando dos seus filhos e maridos eram as mulheres pretas que foram escravizadas/recém-libertas. 
 
 
Inquieta com a ausência de uma representante negra, fui mais a fundo e descobri que no ano de 1851, Sojourner Truth, abolicionista, ex-escravizada, liberta em 1827, fala em uma convenção de mulheres (brancas) por direito ao voto em um discurso histórico em Ohio (EUA). O discurso ficou historicamente conhecido  com o título de “Ain’t I A Woman?” (Eu não sou mulher?) que até hoje é citado em diversas conferências e começa assim: 
 
      “Muito bem, crianças. Onde há muita algazarra alguma coisa está fora de ordem.
Eu acho que com a mistura de negro do sul e mulheres do norte, todo mundo falando sobre direitos, o homem branco vai entrar na linha rapidinho.
   
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens e devem ser carregadas para atravessar valas e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou saltar sobre poças de lama e nunca me ofereceram melhor lugar algum! Eu não sou mulher? Olhem pra mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei e juntei a colheita nos coleiros e homem algum poderia estar a minha frente. E eu não sou mulher? Eu pari três vezes e vi a maioria deles serem vendidos para escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E eu não sou mulher?”
 
E só após 50 anos depois do sufrágio feminino, que um “não” de Rosa Parks intensificou a luta por igualdade ao direito civis , foi quando os negros americanos conseguiram votar.  
 
Nos dois últimos anos que participei da construção do 8 de março em Recife, eram os mesmos rostos de mulheres brancas, em maioria, construindo uma revolução  que elas aprendem como fazer em seus livros; viciadas em teorias que não se aplicam na nossa realidade, enquanto nós, mulheres negras descendentes de homens e mulheres negras que foram escravizados, vivemos essa revolução na prática. E a maioria ainda nem se reconhece negra.
 
É gritante que o empoderamento na favela é muito mais estético do que qualquer outra coisa. Costumo dizer que a teoria está na cabeça errada. No dia do ato não vejo ninguém da minha quebrada (que não seja de algum movimento social) e isso me deixa angustiada. Da vez que participei, falei sobre meu ponto de vista em relação a alguns assuntos e sempre vem uma branca que nunca pisou numa quebrada e diz: “Também não é assim, Tássia”. Então me explica como é?!
 
A maioria das pautas, termos e narrativas que usamos, são apropriação do feminismo americano e europeu. Um discurso euro-centrado, que chega primeiro na feminista branca, que tem acesso aos livros, artigos. Como argumento, tem quem diga: “A internet está aí para isso. Para aprender e se informar”. Como resposta, um verso de racionais que diz: “Só vai a escola pra comer, apenas e nada mais. Como é que vai aprender, sem incentivo de alguém?”. É tipo aquelas coisas… O moleque está se criando sozinho. É fundamental a resinificação das palavras e dos termos. Mas também essencial o acesso e a narrativa de fácil compreensão, no país no qual quem faz trabalho de base é a igreja e só quem ouve a maioria das mulheres oprimidas, estupradas (que estão distante do feminismo “aceitável”) é “Jesus”.
 
É necessário repensar de dentro pra fora, e, como disse o Brown: “Precisamos reaprender o caminho de volta pra periferia e do  o trabalho de base”. Sabe aquela mensagens que os ‘crentes’ distribuem nas portas? É trabalho de base. Sabe a escola dominical e a visita das irmãs em oração quando o filho da irmã vai preso ou assassinado? Se chama rede de apoio. O óleo ungido faz a mesma função do óleo terapêutico. Onde as pautas brancas não chegam e não são suficientes, a fé que as mesmas detonam, é o único bote salva-vidas que a periferia conhece.
 
Nas eleições passadas, declarei apoio a primeira mandata coletiva feita por mulheres do estado de Pernambuco e que foram eleitas. Marquei com elas de fazer uma panfletagem no bairro. Fomos para frente de uma creche e chamei algumas mães, apresentei as candidatas e perguntei:  “A senhora sabe o que é patriarcado?” “Pai de quem, minha filha?” ao que respondi: Então… sabe porque tem poucas creches? porque tem um sistema que diz que mulheres tem que ficar em casa, cuidando da casa, que não pode trabalhar. É um pensamento coletivo base de um sistema que se chama: patriarcado. “Entendi minha filha, já pensou que nojento esse homem?!”. 
 
Acredito que comunicação é revolução e a narrativa de fácil compreensão é a principal ferramenta nesse processo. Foda-se se você não vai ser “professora de macho escroto” mas na roda da ‘facul’ com seus amigos ‘cool’, você faz um discurso incrível, mas que não consegue trocar uma ideia com o cara da boca, teu vizinho, teu primo, sem falar um desses termos que eles nunca ouviram falar. 
 
“Me canso facilmente dos preciosos intelectos que tem necessidade de cuspir diamante sempre que abrem suas preciosas bocas”. – Charles Bukowski
 
Não é sobre aquele seu amiguinho, filhinho de papai, desconstruído, que tem todos os acessos e aprende todos os termos bonitos pra ser cool e aceito. Cobra deles, dos nossos não. Não deu pra cancelar meu pai, nem expôr quando ele foi um escroto com minha mãe. Aqui não funciona assim e não vamos deixar um feminismo inconsequente ditar uma regra que não condiz com a nossa realidade. “O mundo é diferente da ponte pra cá”.
 
Que neste 8 de março, possamos repensar o caminho da militância que estamos escolhendo. Nós, mulheres negras, somos maioria nas estatísticas e minoria na construção dos espaços. Precisamos comer, nos alimentar. Três horas de busão só ida não ajuda muito a colar nos espaços cool de militância que você chega com o carrinho que papai te deu. Que possamos refletir sobre o atraso histórico em direitos e entender que isso afeta nosso processo e que a desconstrução em nossos territórios é diferente. 
 
8 de março em um domingo e tem mulher comprando galinha cedo pra fazer o rango pra o marido quando chegar da pelada. Tem mulher que passou a noite na vigília. Tem mulher que nem dormiu, porque domingo é dia de visita no presídio e muitas mulheres na quebrada acordaram cedo, pegaram fila do busão, fila da penitenciária para passar o “dia da mulher” com seu companheiro que vai dar uma flor pra ela e vai estar ‘suave’. Mas nenhuma delas vai colar na marcha. Elas não são mulheres? E você, para onde vai com seu feminismo?

Tassia Seabra é CEO da Seabra  Produção, Coordenadora na empresa Ibura Mais Culturas e colunista do Polifonia Periférica.

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