Entrevista: conheça um pouco da poetisa Elizandra Souza

Nascida no ano de 1983 no bairro de Jardim Iporanga, periferia Sul de São Paulo, Elizandra viveu dos dois aos 13 anos em Nova Soure (BA), terra natal dos pais. No ano de 1996 retornou a São Paulo e conheceu o hip-hop. Criou um fanzine de poesias, começou a frequentar a Cooperifa no ano de 2004 e participou de um jornal experimental como o objetivo de dar voz à periferia – o “Becos e Vielas”. Em 2006, conquistou uma bolsa universitária pelo Prouni e começou a cursar jornalismo. Foi então que recebeu um convite da Ação Educativa para escrever a Agenda Cultural da Periferia. Confira a entrevista que a poetisa concedeu ao Polifonia Periférica.

PP – Como vc começou a escrever poemas? Você foi diretamente para a poesia ou passou por outros gêneros? Quais suas maiores influências?

Elizandra  – Eu sempre escrevi, mas em diário e não mostrava para ninguém, mas minhas irmãs adoravam roubar para ler escondido, devia ser uma leitura interessante (risos). Em 2001 crie o Fanzine Mjiba e comecei a publicar meus poemas nessa publicação, era uma publicação para divulgar cultura negra e hip hop minhas descobertas sobre identidades negras ou afro-brasileiras e queria compartilhar com as pessoas. Esse fanzine durou de 2001 a 2005. Mjiba quer dizer Jovem Mulher Revolucionária, palavra da Língua Chona de Zimbabue. Mjibas foram as mulheres guerrilheiras que lutaram pela Independência de seu país – Zimbabue.

Tenho mais afinidade com a poesia, mas escrever alguns contos para publicá-los na Antologia Afro Brasileira Cadernos Negros.

Minhas influencias são várias, mas tenho me focado na escrita de mulheres negras como Conceição Evaristo, Maria Tereza, Paulina Chiziane (Moçambique), Zora Neale Hurston (Afro-americana) e J.Nozipo Maraire (Zimbabue), Alice Walker, Toni Morrison, Dinha, Raquel Almeida, Elisa Lucinda, entre outras.

PP  –  Como você concilia a poesia com o trabalho cotidiano?

Elizandra – Eu tenho o privilegio de fazer a Agenda Cultural da Periferia trabalho na Ação Educativa, uma ONG de Educação e ter um coordenador como Eleilson Leite que me proporciona flexibilidade. Trabalho 5 horas como Jornalista. O restante do meu tempo eu dedico a poesia, frequento aulas de inglês e pilates. E frequento muitas atividades culturais que acontecem nas periferias de SP. Sempre que preciso me ausentar para participar de atividades relacionadas a poesia, é muito tranquilo.

PP  –  A linguagem do jornalismo e a linguagem da poesia se cruzam ou hibridizam em seu trabalho poético?

Elizandra – No meu trabalho poético se aparecer a linguagem jornalista não é perceptível por mim, não tenho consciência desse hibridismo na escrita da minha poesia, mas pode ser que procurando e encontre algo, mas muito inconsciente.

PP – Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade machista e preconceituosa. Como é ser poetisa negra da periferia?

Elizandra – É uma luta cotidiana, é matar um leão por segundo e ainda retira-lo do caminho. A mulher negra é à base da sociedade brasileira, infelizmente temos muita herança da escravidão… Não é fácil ser uma mulher negra, poeta e da periferia. O que mais nos fragiliza é a auto-estima. Meninas negras não querem ter essa cor de pele, cabelos crespos, nariz largo…e se acham feias. A escravidão negra foi eficaz em nos inferiorizar, eles conseguiram que a população negra se odiasse, não gostasse de si mesmo. Existem situações complicadas como o assédio, discriminações de gênero, raça/etnia e social que entrelaçados você não sabe porque foi menosprezada se por ser negra, por ser mulher ou por morar na periferia. E tudo isso contribui para que o racismo seja apenas tratado como um tipo de preconceito… ser poetisa negra da periferia é ter dificuldade para publicar livros, as poucas poetisas negras presentes nos saraus não tem publicações dos seus trabalhos, e isso não é só com as poetisas negras, as poetisas em geral tem pouca participação nas antologias e livros, eu ainda não sei definir porque isso acontece, tenho uma hipótese que esta muito relacionada com a educação que nós mulheres recebemos que são envolvidas com as atividades do privado, ou seja, atividades domésticas, enquanto os homens são estimulados a voaram cada vez mais alto. As poetisas mulheres negras e não-negras mostram pouco seus trabalhos, preocupadas com o que a sociedade irá pensar sobre o seus textos.Como ela será vista depois de recitar um poema. Tenho um poema intitulado “Em legitima defesa” que foi o impulsionador para fazer o livro “Águas da cabaça”, este texto fala sobre violência contra a mulher e relato casos que foram midiatizados, ele causa muito estranhamento nos homens pois nos primeiros versos eu digo “ já estou vendo nos varais os testículos dos homens que não sabem se comportarem”, os homens param no segundo verso e acham um absurdo que estou disseminadando a violência gratuita…mas eu estou apenas avisando que a sociedade pode piorar, caso esse problema não seja solucionado…Eu indago que nós mulheres vamos começar a reagir… segue o vídeo para entender o poema:http://www.youtube.com/watch?v=RyXebEOvELc

Porque esse poema foi impulsionador para que eu fizesse um livro solo, pois enviei esse poema para algumas antologias, mas ela não foi publicada. E para ser publicada eu teria que fazer um livro meu, ter liberdade para escrever o que eu desejava, sem censuras…Esse poema já me deu algumas alegrias. Uma delas é o vídeo clipe da cantora Lívia Cruz “ Não foi em vão” e ela se inspirou nesse texto para também denunciar a violência contra a mulher e eu apareço no final recitando. E outra alegria foi uma manifestação que aconteceu na Cooperifa no qual um grupo de mulheres, 8 no total, recitaram o mesmo poema.

PP – De onde vem a inspiração para sua poesia?

Elizandra – A maior inspiração são as minhas vivências, mulheres negras que persistem em condições adversas, sorrisos, alegrias, lutas, elementos da natureza. A minha poesia é banhada de simplicidade, de identificação com a cultura afro-brasileira, as ruas, o Hip Hop me inspira muito.

PP  – Você acaba de lançar seu segundo livro intitulado “Águas da Cabaça”. Como foi a construção desse projeto e o que mais te marcou nele?

Elizandra – Falta um dia para o lançamento será dia 26/10 na Ação Educativa e 31/10 Sarau da Cooperifa . A construção desse projeto começou a ser desenhado desde 2007 com poesias que escrevi depois do livro Punga e fui guardando. Ano passado comecei a me incomodar com a ausência de livros protagonizados por mulheres negras, fui amadurecendo essa ideia na minha mente. E no inicio deste ano tive o Projeto Mjiba – Jovens Mulheres Negras aprovado pelo VAI – Valorização de Iniciativas Culturais no qual realizei duas ações. A primeira foi um evento em comemoração a data 25 de julho – Dia da Mulher Negra – Afro Latina e Caribenha convidei mulheres negras que protagonizam em diversas linguagens artísticas. E a segunda ação é o livro Águas da Cabaça que é a minha própria antologia reuni textos de2007-2012, convidei seis mulheres negra que eu carinhosamente chamo de minhas parteiras: Salamanda Gonçalves (capa), Renata Felinto (ilustras de dentro do livro), Nina Vieira (Projeto gráfico), Mel Adún (prefácio), Priscila Preta (posfácio) e Carmen Faustino (revisão). O livro Águas da cabaça foi preparado durante 4 meses. O que mais me marca é a união dessas mulheres negras em torno de um projeto literário, é o protagonismo, é o nosso protagonismo, fazer um livro bem feminino e afro-brasileiro. Estou bem orgulhosa como resultado, foi além do esperado. Estou ansiosa para o lançamento para apresentar a criança para os amigos, leitores e leitoras que acompanham o meu trabalho.

PP  – Seu primeiro livro “Punga” foi lançado em 2007. Qual a diferença entre ele e “Águas da Cabaça” e o que mudou em você ao longo desses cincos anos?

Elizandra – Difícil esse tipo de comparação, acredito que da mesma forma que uma mãe ama seus filhos cada um com suas características, a relação do autor com seus livros são parecidos. O Punga é um trabalho que teve muita energia foi um sonho adquirido, o Allan da Rosa pensou na possibilidade de ter um livro de Elizandra e Akins, na época 2006 eu e o Akins não achávamos possível publicar um livro e quando a ideia foi colocada em prática, foi a melhor das realizações. A diferença de Punga para Águas da cabaça é o amadurecimento e um trabalho todo realizado por mulheres negras desde os textos até a revisão, é o protagonismo de mulheres negras atuando na arte. Em relação aos textos é também o amadurecimento, a experimentação, estou testando outras escritas, outras figuras de linguagens, outros temas… Mas a essência ainda é a mesma, uma mulher negra que quer que seus textos transpareçam que é uma mulher negra escrevendo, que o texto diga isso antes do que a minha fotografia e o meu endereço… Diferente do Punga, que eu não acompanhei o passo a passo, foi um livro realizado pela Edições Toró,com Allan da Rosa e Matheus Subverso. Águas da cabaça todas as etapas desde a parte burocrática até o projeto gráfico final foram acompanhados por mim.

PP  – O que há de mais forte e marcante em sua poesia?

Elizandra – A vontade que o texto revele que eu sou uma mulher negra mesmo que eu não utilize essas duas palavras, as vezes consigo, as vezes não. Mas é essa necessidade de falar da mulher negra, de protestar contra o machismo e o racismo.

PPDiga cinco palavras que definem a sua poesia e cinco palavras que definem a mulher Elizandra Souza.

Poesia: Uterina – identidade negra – Feminina – Amor – Fertilidade

Elizandra: Inquieta – Curiosa – Sensível – Observadora – Atenciosa

PP – Deixa uma mensagem final.

Elizandra – Quero deixar um poema:

CALAR O GRITO/GRITAR O SILÊNCIO…

Entoa a canção…
Harmoniza os passos descompassados
Pulsam de vida: a voz, a vida e a rima
As crianças ouvem o silêncio das palavras
Os homens insultam os gritos das crianças
As mulheres desejam os silêncios e os gritos
Os gritos e os silêncios….
Neste ritmo…
O silêncio…
O grito…
O silêncio…
O grito…
O grito…
O silêncio…
No fundo elas vão calar o grito…
E gritar o silêncio…
Calar o grito!
Gritar o silêncio!

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