OITOS ANOS DE NEGAÇÃO DE UMA LICENÇA Á INTERDIÇÃO DO SARAU DO BINHO

POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho

Foi com este poema de Mario Quintana que Binho explanou aos vários saraus e ativistas culturais presentes na última segunda-feira (28/05/2012) em seu sarau o que estava acontecendo.

Pela negação de um alvará de funcionamento por parte da prefeitura do município de São Paulo o bar será fechado, as multas acumulam o valor de oito mil reais.

Mas o sarau continuará.

Quem conhece o sarau e o freqüenta sabe de sua extrema importância e de sua história, sabe que há oito anos o Binho faz intervenções culturais em uma área extremamente carente de cultura. Sabe também que o Ministério da Cultura o reconheceu como ponto de cultura.

O sarau aconteceu normalmente, com seus poetas e músicos, muita gente engajada política e culturalmente e todos ali para somar a um dos precursores da literatura marginal deste século.

Binho ficou conhecido por suas “postesias”. Ele retirava cartazes e placas políticas e colocava-as de volta com poesia em cima. Publicou suas postesias em um livro de mesmo nome.

A nós fica toda a solidariedade e a estima de que o sarau se restabeleça em outro local e no que nos competir estaremos juntos nas manifestações.

Temos na integra o manifesto ao Sarau escrito por Serginho poeta.

Fonte: http://www.spressosp.com.br/2012/05/kassab-fecha-bar-do-sarau-do-binho/

Foto: Ângelo Alves

MANIFESTO: O SARAU DO BINHO É NOSSO!!!

No dia 28 de maio de 2012 o nosso amigo Binho, brilhante batalhador pela cultura e pelas causas sociais pode ter realizado seu último Sarau. Ao menos foi isso que nos foi dito no bar, que encerra suas atividades por conta de uma multa de R$ 8.000,00 imposta pelo PSIU, lei da Prefeitura de São Paulo para limitar o horário de atividades dos bares da capital.

Os moradores do entorno do estabelecimento tem sim o direito de dormir para acordar cedo e ir ao trabalho, não discutimos isto. Mas o povo deve ter o direito de ter um espaço para se manifestar e apresentar suas criações artísticas, discutir questões de suma importância para toda a sociedade como foi feito várias vezes no Sarau, e que não precise do crivo das instituições governamentais, que seja espontâneo, feito onde o desejo coletivo criar. Devemos respeitar os direitos de outrém, mas não podemos aleijar todo um grupo de trabalhadores que fazem do espaço seu ponto de encontro para comungar a arte, em forma de cinema, teatro, poesia, dança, pintura e tantas outras que por lá passaram.

No espaço muitas pessoas até então invisíveis no meio da multidão dessa megalópole, se descobriram, seja para suas realizações artísticas, seja para o exercício de sua cidadania, portanto entendemos que não pode assim, simplesmente acabar um projeto tão importante para o desenvolvimento da nossa cultura.

O Sarau do Binho já não nos pertence mais, é de toda a nação, uma vez que muitos projetos culturais tomaram-no como inspiração, em lugares remotos da cidade; do Estado, haja vista a participação no Circuito Sesc, onde percorreu várias cidades do interior de São Paulo e foi visto por milhares de pessoas; e do país, onde compatriotas de diversos estados enviam mensagens de agradecimento ao ter passado por nossa cidade e podido participar deste encontro tradicional de segunda feira.

É preciso muito mais que talento para continuar fazendo arte em um país onde apenas o produto cultural interessa aos patrocinadores da cultura, onde a grande mídia vira as costas para as tradições que não se enquadrem nos seus modelos, vide o Carnaval que surgiu de uma necessidade tão legítima e se tornou um grande negócio para as grandes marcas, os grandes meio de comunicação e para os dirigentes das escolas, que vendem a paixão de tantas comunidades. Mas, valente que sempre fomos, não só no discurso como na prática, afinal quantas ações já partiram desse coletivo visando buscar o direito à cidadania, como no apoio à diversas organizações que lutam pelo seu direito, à moradia, à educação, à alimentação e à cultura, não podemos nos render e vamos assoprar esta brasa até que a chama volte a aquecer nossos anseios de um país mais justos e sem classes.

Não podemos deixar morrer o Sarau do Binho. É hora de mostrar a força dos coletivos culturais e sociais de São Paulo e do Brasil. Contamos com o apoio de todos.

Serginho Poeta.

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