Trio curitibano aposta em letras do dia a dia e influência hardcore sem clichés. Ferkes mistura urgência sonora e narrativa pessoal
A cena autoral de rock de Curitiba pode parecer pequena no radar nacional, mas guarda uma energia visceral e recente que merece muito atenção — e entre as vozes que têm chamado atenção nos últimos meses está a Banda Ferkes, um trio que começou a ganhar forma em 2024 e já levanta algumas questões interessantes sobre onde o rock contemporâneo pode chegar quando bebe direto da experiência de quem vive o cotidiano de frente.
Formada por Fer Gonçalves (vocal), Jean Krenski (guitarra) e Binho (baixo), o grupo mergulha com naturalidade em influências do hardcore sem se prender aos clichês do gênero, preferindo explorar um espectro que vai do peso cru às nuances emocionais de quem escreve suas letras a partir do dia a dia real de quem circula pela cidade. A proposta está clara desde a própria descrição da banda nas redes: guitarras rápidas, urgência visceral e a sensação de que cada verso é parte de uma narrativa pessoal ou coletiva.
O que chama atenção na Ferkes é justamente essa aposta em traduzir questões íntimas — relacionamentos, conflitos internos e as pequenas grandes frustrações da vida contemporânea — em canções que não perdem a agressividade, mas que também não se contentam com a caricatura do gênero. É um rock que conversa tanto com quem já foi fisgado pelo hardcore quanto com quem ainda busca algo além do som pesado.
Curitiba, por sua vez, tem um histórico respeitável nessa seara. A cidade paranaense é conhecida por abrigar bandas influentes do punk, rock e hardcore desde décadas atrás, mesclando tradição underground com experimentações que sempre mantiveram uma cena viva — mesmo sob os altos e baixos comuns ao cenário independente. Grupos como Sugar Kane e outros nomes da cena local ajudaram a pavimentar um terreno fértil para novas gerações de músicos autorais.
No caso da Ferkes, o foco declarado em estúdio desde o início sugere uma banda que pensa sua música além do show imediato, buscando registrar com cuidado o que, no papel, nasce das vivências e observações cotidianas. As faixas já estão disponíveis nas principais plataformas de streaming e, mesmo com uma discografia ainda em formação, já apontam para uma banda que pode sim merecer acompanhar com mais atenção nos próximos passos da cena rock nacional.
O trio ainda não é um nome de grande destaque fora de círculos específicos, mas a maneira como conjuga urgência, letras de impacto direto e textura sonora lembra que, em 2026, o rock autoral brasileiro segue encontrando maneiras de se reinventar. Ferkes é uma das evidências recentes de que ainda há fôlego, vontade e intenção de falar com o público que procura algo que vá além do mainstream.
