Do Maranhão para o mundo: a estreia poética do Efeito Túnel que desafia rótulos

O trio maranhense que transformou tempo e distância em música. Álbum de estreia é viagem íntima e experimental pela música brasileira

O Efeito Túnel que a música brasileira precisava estava sendo construído em silêncio no Maranhão. O trio formado por Caio Mattos (violão), Tammys Loyola (voz) e Marcus Bros (flauta) entrega ao público agora seu primeiro álbum homônimo, uma coleção de nove faixas que soma mais de quatro anos de construção cuidadosa e reflexiva. O disco, lançado em 31 de dezembro de 2025, não soa como um produto apressado, mas como uma obra que exige tempo de quem escuta, assim como seus criadores exigiram tempo de si mesmos.

A ideia de “passagem” é mais que um título: é o fio condutor do trabalho. O nome Efeito Túnel, inspirado tanto na literatura quanto em um fenômeno da física quântica que descreve partículas atravessando barreiras, traduz bem a proposta do grupo — ultrapassar limites estéticos e pessoais sem perder a poesia no caminho.

O som é difícil de encaixar em rótulos. Há samba que ressoa em ecos da tradição maranhense, há incursões pelo bolero e pelo pop-rock, há momentos instrumentais que lembram diálogos com paisagens sonoras japonesas, e tudo isso respirando um experimentalismo que é tão natural quanto o diálogo cuidado entre violão, voz e flauta.

A letra, quando aparece, tem textura: é íntima sem ser hermética, confessional sem ser solipsista. Em entrevistas, Tammys destaca que muitas canções nasceram de experiências pessoais antes de se transformarem em narrativa coletiva, e essa tensão entre o individual e o universal é um dos pontos fortes do disco.

As faixas “Janeiro” e “Tristeza” trazem colaborações que ampliam o espectro sonoro do álbum. Nicole Terrestre, Tiago Máci e o produtor Memel Nogueira adicionam temperos que não soam como enfeites, mas como extensões naturais da música do trio.

O processo criativo da banda é quase um manifesto anti-fast music: apesar da distância geográfica entre os integrantes e das rotinas cheias, Efeito Túnel manteve uma prática de escuta constante e troca remota de ideias que acabou moldando as próprias músicas. Essa maneira não convencional de trabalhar pode ser um espelho da música contemporânea independente no Brasil — dispersa, colaborativa e atenta às nuances do cotidiano.

A primeira apresentação ao vivo do álbum aconteceu em São Luís, no Solar Cultural Maria Firmina dos Reis, com formação ampliada e convidados, reforçando que o disco não é um artefato isolado, mas um ponto de partida para uma circulação mais ampla em 2026.

No fim, Efeito Túnel não é apenas um álbum: é um convite a quem ouve para desviar o passo das melodias óbvias, aceitar a complexidade silenciosa de tempos interiores e perceber que a travessia, muitas vezes, é o próprio destino.

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