Rusty HC: novo pulso do hardcore potiguar mistura crítica social com fúria sonora

Banda natalense estreia com EP que personifica o capitalismo em choque com a periferia brasileira. Com letras afiadas e riffs velozes, Rusty HC redef ine o hardcore nordestino em 2025

Emergindo na ativa em março de 2024, a Rusty HC já se posiciona como uma das vozes mais agressivas e politizadas da nova cena hardcore/punk do Nordeste. Originária da periferia de Natal (RN), a banda imprime um som rápido, pesado e visceral, com letras que atravessam política, religião, desigualdades sociais e batalhas pessoais, em um momento em que o gênero volta a pulsar no Brasil após anos de relativa hibernação no circuito independente.

Com uma formação enxuta — Paulo Cosme (vocal), Djailton Dantas (guitarra), Bruno Oliveira (baixo) e Carlos Henrique (bateria) — a Rusty HC molda sua estética sonora no punk e hardcore tradicionais, mas sem se restringir a fórmulas: gravando riffs que lembram a urgência do velho movimento hardcore com tempero contemporâneo, a banda reflete a inquietação jovem nordestina diante de um país em permanente ebulição cultural e política.

Deus Capital: barulho como sobrevivência

No início de 2025, o grupo lançou seu primeiro EP, Deus Capital — trabalho que rapidamente se tornou referência entre ouvintes atentos à sonoridade mais crua e crítica da cena alternativa brasileira. Disponível nas principais plataformas digitais, o EP personifica o capitalismo como uma entidade opressora e quase religiosa, construindo uma alegoria em que dogmas econômicos e disciplina social se confundem em uma crítica afiada ao status quo. Nada aqui é suavizado: cada música é curta, direta e cheia de atrito, como o cotidiano que a banda descreve.

Faixas como Suicídio Polifônico, Patriotário e Nem Sempre Tão Sóbrio misturam velocidade com uma sensibilidade desconfortável, olhando para questões como saúde mental, consumismo, extremismo político, desigualdade social e autoconhecimento — tudo em pouco mais de quinze minutos de fúria sonora e letras que não pedem desculpas por confrontar tabus contemporâneos.

Crítica cultural

O EP Deus Capital não é apenas um registro musical, mas um manifesto contra a romantização do underground. Ao expor o desgaste real de quem cria arte em condições adversas, a Rusty HC reafirma que fazer música fora dos grandes centros não é escolha estética, mas sobrevivência. Nesse sentido, o grupo se insere em uma tradição de bandas que transformam precariedade em potência criativa, mantendo vivo o espírito contestador do hardcore.

A cena potiguar em ebulição

O surgimento da Rusty HC acontece em um contexto mais amplo de revitalização do hardcore urbano no Nordeste brasileiro, onde bandas e coletivos têm resgatado a tradição de usar o som como instrumento de resistência e crítica social, em uma linha que dialoga com fenômenos históricos do gênero na região.

A Rusty HC também se destaca pela presença em palcos locais, como o Backstage Rock Bar, em Natal, onde se apresentou diversas vezes em 2024 e 2025. Essa atuação reforça o papel da banda como parte de uma cena nordestina que, apesar das dificuldades, segue produzindo música de impacto e relevância cultural.

Mais que um nome novo na cena, a Rusty HC demonstra que o espírito do punk e do hardcore — confrontador, urgente e visceral — continua vivo nas periferias brasileiras, pronto para ser ouvido com ouvidos atentos e ouvidos revoltados.

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