{"id":6418,"date":"2012-10-08T10:29:14","date_gmt":"2012-10-08T10:29:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/?p=6418"},"modified":"2013-02-23T13:50:12","modified_gmt":"2013-02-23T13:50:12","slug":"funk-se-quem-puder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/?p=6418","title":{"rendered":"FUNK-SE quem puder"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-PM-Heli\u00f3polis.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-6433\" title=\"Funk-PM-Heli\u00f3polis\" src=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-PM-Heli\u00f3polis-290x284.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"284\" \/><\/a><strong>Por Moriti Neto e Vinicius Souza*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bailes na periferia de S\u00e3o Paulo s\u00e3o encerrados sob violenta repress\u00e3o policial, enquanto meninas s\u00e3o levadas de \u00f4nibus das comunidades onde moram para \u201canimar a festa\u201d nas baladas chiques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sexta-feira \u00e0 noite, 20 de julho, periferia da zona sul de S\u00e3o Paulo. Na pra\u00e7a do Jardim Botucatu, aproximadamente 60 garotas entre 15 e 23 anos esperam para embarcar no \u00f4nibus que vai lev\u00e1-las para a balada funk da NEXXT, famosa casa noturna na Vila Ol\u00edmpia, na parte rica e mais central da zona sul. O \u201ctoque de recolher\u201d (a sa\u00edda), est\u00e1 previsto para meia-noite, segundo o convite enviado \u00e0s garotas via Facebook e torpedo telef\u00f4nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O programa \u00e9 gr\u00e1tis, s\u00f3 n\u00e3o inclui o consumo de bebida na casa noturna. Mas os dois rapazes que promovem o evento se encarregam do aquecimento das mo\u00e7as. Carregando garrafas, a dupla transita pelo corredor do velho \u00f4nibus de turismo alugado e trata de manter os copos pl\u00e1sticos com vodka e soda sempre cheios. Ningu\u00e9m recusa. A partida \u00e9 dada com uma hora de atraso, \u00e0 uma da madrugada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00f4nibus \u00e9 bem diferente daquele dourado estampado na p\u00e1gina da NEXXT, no Facebook. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem o logo da casa nem a imagem com garrafas de champagne que acompanham as frases direcionadas \u00e0s garotas: \u201cLeva para a NEXXT e, no final da noite, leva embora. De gra\u00e7a. S\u00f3 para mulheres\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Animadas pelos drinks, as meninas n\u00e3o parecem se incomodar com a diferen\u00e7a. O tal modelito \u201cperiguete\u201d predomina. Vestidos justos e curtos, apesar de um dia de frio intenso do inverno paulistano. Sand\u00e1lias com grandes saltos. Maquiagens fortes, principalmente nos olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando descem, 40 minutos depois, causam alvoro\u00e7o no tr\u00e2nsito da rua estreita que abriga outras casas noturnas, como a History, para um p\u00fablico \u201cmais maduro\u201d. Embora o convite prometesse dispens\u00e1-las da fila, as meninas ficam meia hora para entrar na \u00e1rea VIP, atraindo os olhares masculinos. Os rapazes que as trouxeram conversam com uma funcion\u00e1ria da casa sobre outra balada, na boate Cabaret, no Brooklin, e garantem levar mais \u00f4nibus lotados de meninas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-Entrada-da-NEXXT-meninas-na-vitrine-humana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-6437\" title=\"Funk-Entrada-da-NEXXT-meninas-na-vitrine-humana\" src=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-Entrada-da-NEXXT-meninas-na-vitrine-humana-290x284.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"284\" \/><\/a>Aos poucos, as garotas s\u00e3o liberadas para subir aos camarotes, no piso superior, onde se juntam a duas dezenas de meninas que vieram de outros pontos da cidade. Agora, s\u00e3o cerca de 80 as que entram de gra\u00e7a para \u201canimar\u201d a \u00e1rea VIP. No ambiente pouco iluminado, com sof\u00e1s e mesas de sinuca, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de tr\u00eas mulheres para cada homem. Eles pagam R$ 60 de entrada ou R$ 120 com consuma\u00e7\u00e3o e mais a bebida das mo\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O funk toca alto nas caixas de som. A sensualidade rola solta no sal\u00e3o. Perto das 2h da manh\u00e3, algumas meninas j\u00e1 est\u00e3o semidespidas nos cantos mais escuros da \u00e1rea VIP. Cigarros de maconha e comprimidos de ecstasy circulam nas m\u00e3os das jovens at\u00e9 5h30 da manh\u00e3, quando o p\u00fablico come\u00e7a a sair.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para as meninas, \u00e9 hora de pegar o \u00f4nibus de volta ao ponto de partida e arrumar por conta pr\u00f3pria outra condu\u00e7\u00e3o que as leve para as comunidades onde moram em Heli\u00f3polis, Vila Brasilina, Vila Moraes, Parque Bristol, \u00c1gua Funda, Jardim Maristela e Jardim Celeste. Nesses bairros, onde elas costumavam dan\u00e7ar funk, os bailes acabaram por causa da repress\u00e3o policial. Al\u00e9m do barulho, que incomodava os vizinhos, a pol\u00edcia alegava a presen\u00e7a de drogas e \u00e1lcool para justificar a viol\u00eancia como que entrava para encerrar as festas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ironicamente, ao menos tr\u00eas crimes podem ser identificados na cena descrita nos par\u00e1grafos acima, como explica o advogado Fernando de Oliveira e Silva, de S\u00e3o Paulo, especialista em crimes de g\u00eanero:\u00a0 \u201cAl\u00e9m do \u00f3bvio, ou seja, oferecer bebidas alc\u00f3olicas para menores, fazem promo\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o, mesmo que sem a percep\u00e7\u00e3o das meninas. Tamb\u00e9m existe incita\u00e7\u00e3o ao crime, o incentivo \u00e0 pr\u00e1tica da pr\u00f3pria prostitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 dever do Estado assegurar que isso n\u00e3o ocorra\u201d, esclarece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na periferia, funk e droga d\u00e3o cadeia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2011, a Pol\u00edcia Militar montou a Opera\u00e7\u00e3o Pancad\u00e3o, batizada em refer\u00eancia \u00e0 batida do funk, digna de uma opera\u00e7\u00e3o de guerra, que acabou com bailes no Campo Limpo, Heli\u00f3polis, M\u2019Boi Mirim, Jardim \u00c2ngela, Jardim Capelinha, Jardim Cupec\u00ea, Trememb\u00e9 e ABC Paulista. Assim, os eventos ligados ao ritmo passaram a ser realizados de surpresa, combinados de \u00faltima hora e sem local fixo, mesmo nos bairros por onde a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia passado. As not\u00edcias sobre a trucul\u00eancia policial que entrava nas ruas jogando bombas de efeito moral, deixando pessoas feridas por balas de borracha ou sprays de pimenta, correram entre os jovens da periferia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos bailes desmantelados e depois proibidos, comerciantes das comunidades foram \u2013 e ainda s\u00e3o \u2013 autuados por venda de bebidas alc\u00f3olicas a menores e de festas sem alvar\u00e1. Invariavelmente, os aparelhos de som dos carros acabam apreendidos. \u201cA pol\u00edcia age com uma viol\u00eancia incr\u00edvel. Criminalizam todos os que est\u00e3o no baile ou ao redor dele e batem indiscriminadamente. \u00c9 uma correria s\u00f3. Claro que tem reclama\u00e7\u00e3o da vizinhan\u00e7a, mas a molecada faz na rua porque n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o de lazer na comunidade\u201d, diz Sandro Soares Silva, o MC Sandrinho, morador de Heli\u00f3polis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-carro-tunado-Heli\u00f3polis.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-6439\" title=\"Funk-carro-tunado-Heli\u00f3polis\" src=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-carro-tunado-Heli\u00f3polis-300x190.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-carro-tunado-Heli\u00f3polis-300x190.jpg 300w, https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-carro-tunado-Heli\u00f3polis.jpg 448w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u201cRevestida pela autoridade moral de lei e ordem, a pol\u00edcia \u00e9 acionada para repreender a manifesta\u00e7\u00e3o cultural da periferia valendo-se, inclusive, de for\u00e7a desproporcional. \u00c9 muito mais do que uma a\u00e7\u00e3o para garantir sil\u00eancio e respeito na comunidade. \u00c9 uma forma carregada de preconceito e de imposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d, comenta o historiador pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e coordenador do Quilombo Ra\u00e7a e Classe, Wilson Hon\u00f3rio da Silva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia contra a molecada funciona. No Jardim Jaqueline, na zona oeste, havia dois pancad\u00f5es: \u00e0s sextas-feiras, o Baile da Princesinha, e aos s\u00e1bados, o Baile da Parada Final. Nenhum deles foi alvo da pol\u00edcia, mas os organizadores preferiram adotar padr\u00e3o itinerante para evitar confrontos. \u201cQuando soubemos que outras comunidades, mesmo distantes, tinham sido invadidas, escolhemos avisar local, data e hora do baile pouco tempo antes dele acontecer. Muitas vezes, nem conseguimos fazer\u201d, explica Fabiano de Souza, que mora no bairro e promove eventos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os empres\u00e1rios dos artistas dos bailes tamb\u00e9m buscam se distanciar depois da opera\u00e7\u00e3o policial. Na M\u00e1ximo Produtora, que administra as carreiras dos MCs Guim\u00ea, Rodolfinho e Danado, todos com milh\u00f5es de acessos no Youtube, \u00e9 poss\u00edvel sentir a apreens\u00e3o que acompanha a declara\u00e7\u00e3o da assessora, ao cancelar uma entrevista marcada h\u00e1 dias: \u201cAviso que os meninos n\u00e3o v\u00e3o falar nada sobre a invas\u00e3o da pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Repress\u00e3o frequente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noite de 30 de junho de 2012. Cinco viaturas transportando 20 policiais militares chegam \u00e0 comunidade de Heli\u00f3polis, na zona sul paulistana. Parte do contingente sai dos carros e caminha pelas ruas estreitas de armas nas m\u00e3os. A linha de frente, formada por homens com fuzis, metralhadoras e escopetas, \u00e9 ainda mais intimidadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tens\u00e3o toma conta dos moradores do bairro. O pernambucano Jos\u00e9 Cl\u00e1udio da Silva, que reside h\u00e1 20 anos em Heli\u00f3polis, se diz acostumado \u00e0s batidas da pol\u00edcia, mas conta que o cerco apertou nos \u00faltimos tempos: \u201cCome\u00e7aram a vir mais vezes com a hist\u00f3ria de acabar com os bailes funk, sempre fazendo press\u00e3o, intimidando. \u00c9 ano de elei\u00e7\u00e3o e querem mostrar servi\u00e7o. Os meninos faziam muito barulho, atrapalhavam o sono, s\u00f3 que n\u00e3o precisava ser assim, na base da porrada, do medo\u201d, opina. O filho de 15 anos o chama pelo celular. \u201cEle est\u00e1 na casa de um amigo aqui perto e ficou com p\u00e2nico de voltar sozinho pra casa quando viu a PM\u201d, detalha, antes de sair correndo para buscar o garoto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-maria-antonia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-6441\" title=\"Funk maria-antonia\" src=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-maria-antonia-300x190.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-maria-antonia-300x190.jpg 300w, https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Funk-maria-antonia.jpg 448w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A ronda policial segue. As pessoas saem das casas para ver o que est\u00e1 acontecendo. Maria do Carmo Faria, h\u00e1 12 anos na comunidade, conta que costuma acompanhar as quatro filhas nas festas. \u201cJ\u00e1 fizeram at\u00e9 reportagem comigo. Sou a m\u00e3e que vai pras baladas com as filhas. Gosto de ver o que fazem, com quem falam, mas n\u00e3o vou pra proibir nada, apenas n\u00e3o gosto que se excedam\u201d, esclarece. Sobre os bailes na rua, ela diz: \u201cOs carros estacionavam e, com o som, o pessoal ia chegando. Era muito natural. A meninada dan\u00e7ava e batia papo. Claro que a maioria bebia, mas iam fazer o qu\u00ea? N\u00e3o tem nada pra fazer aqui\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEntendo quem reclama. Muitos precisam dormir pra trabalhar no dia seguinte. O problema \u00e9 que ningu\u00e9m negociou outra sa\u00edda, n\u00e3o ofereceram espa\u00e7os pra fazer os eventos e partiram logo pra viol\u00eancia. Tem quem diga que havia gente pisoteada nos bailes. S\u00f3 vi pessoas pisoteadas quando a pol\u00edcia chegou batendo, jogando bomba, e p\u00f4s todo mundo pra correr\u201d, conta o MC Sandrinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rola samba, rap e funk, mas nada de \u00e1lcool<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tentar suprir a car\u00eancia de lazer, desde 2005 acontece em Heli\u00f3polis a Balada Black \u2013 Festa sem \u00c1lcool, realizada todo \u00faltimo s\u00e1bado do m\u00eas, ao som de rap, samba e funk, e entrada franca. Com apoio de uma multinacional do setor de bebidas, o baile ocupa a sede da Uni\u00e3o dos N\u00facleos Associa\u00e7\u00f5es e Sociedade dos Moradores de Heli\u00f3polis e S\u00e3o Jo\u00e3o Cl\u00edmaco (Unas). S\u00f3 s\u00e3o comercializados refrigerantes e \u00e1gua, cuja venda gera recursos para o fundo fixo do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCome\u00e7amos em 2005, querendo mostrar pra juventude que \u00e9 poss\u00edvel se divertir sem beber. A balada d\u00e1 certo, pois a comunidade abra\u00e7ou a ideia. \u00c9 um espa\u00e7o de lazer e educacional, mas s\u00f3 conseguimos fazer uma vez por m\u00eas. Temos que admitir que n\u00e3o \u00e9 suficiente para o jovem, que precisa de mais op\u00e7\u00f5es\u201d, fala Reginaldo Jos\u00e9 Gon\u00e7alves, o DJ Reginaldo, um dos idealizadores do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adolescentes e at\u00e9 crian\u00e7as formam o p\u00fablico da Festa sem \u00c1lcool, que come\u00e7a \u00e0s 20h e vai at\u00e9 a meia noite e meia. As m\u00fasicas escolhidas pelos DJs, inclusive o funk, s\u00e3o tocadas em vers\u00e3o \u201clight\u201d, com letras menos picantes. Os mais velhos costumam ir para outras baladas no fim da festa. \u201cPensamos em trazer os jovens aqui pra conscientizar, mas n\u00e3o pedimos pra n\u00e3o se divertirem em lugares onde tenha \u00e1lcool e m\u00fasicas mais pesadas. O que dizemos ao pessoal mais velho \u00e9 que beba sem se matar e, aos mais novos, que evitem bebidas antes do tempo\u201d, refor\u00e7a Reginaldo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para continuar se divertindo na madrugada, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 ir para as \u00e1reas nobres da cidade ou outros munic\u00edpios da Grande S\u00e3o Paulo. Roberta Faria, de 17 anos, moradora de Heli\u00f3polis, adota essa alternativa. \u201cNa Balada Black, fui at\u00e9 os 12, 13 anos. N\u00e3o \u00e9 mais a minha. Hoje, eu e meu namorado buscamos divers\u00e3o fora. Normalmente, vamos pra S\u00e3o Caetano, no ABC, que \u00e9 mais pr\u00f3ximo\u201d, ressalta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da periferia o funk migra para os Jardins<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitando a migra\u00e7\u00e3o da periferia, casas como Black Bom Bom, na Vila Madalena, e Fantasy Club, nos Jardins, promovem bailes especificamente para atrair jovens das comunidades. Na mesma linha, a Mans\u00e3o do Funk, em Moema, \u00e9 frequentada todas as sextas por muitos moradores da periferia que lotam os carros para chegar at\u00e9 a casa, na avenida Ibirapuera. Como a balada come\u00e7a \u00e0s 23h, mas lota s\u00f3 depois das 2h, \u00e9 dif\u00edcil chegar de \u00f4nibus. Muitas mo\u00e7as t\u00eam convites VIP e s\u00e3o dispensadas de pagar entrada. Elas s\u00e3o acompanhadas de promotores do evento, normalmente rapazes da periferia que cumprem o papel de convidar garotas em quantidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reportagem da P\u00fablica foi \u00e0s casas NEXXT, na Vila Ol\u00edmpia, e Mans\u00e3o do Funk, em Moema,\u00a0e encontrou tudo o que \u00e9 proibido na periferia. O p\u00fablico consome \u00e1lcool fartamente e sente-se o cheiro da maconha na pista de dan\u00e7a, enfuma\u00e7ada pelo gelo seco. Comprimidos de ecstasy e frascos de lan\u00e7a-perfume passam de m\u00e3o em m\u00e3o. No banheiro, pinos de coca\u00edna s\u00e3o abertos sobre carteiras ou qualquer outra superf\u00edcie lisa para serem cheirados. Os mesmos jovens proibidos de dan\u00e7ar funk na periferia em bailes de rua que as autoridades qualificam como apologia ao uso de drogas, podem us\u00e1-las livremente no bairro nobre. Nem a presen\u00e7a de uma policial fardada do Corpo de Bombeiros inibe os frequentadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cinara Menezes \u00e9 a DJ da noite. Nasceu na cidade de Bel\u00e9m do Par\u00e1, mas foi criada em S\u00e3o Paulo, \u201cna quebrada da zona sul\u201d, como faz quest\u00e3o de frisar. \u201cCresci no Jardim Germ\u00e2nia, na zona sul. Vivia em condom\u00ednio, mas tinha contato com a comunidade. Hoje, toco nas baladas e vem muita gente da periferia. O pessoal quer funk. Curto mais outros sons, mas eles preferem\u201d, comenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moradora da Cidade Ademar, na zona sul, Let\u00edcia Ribeiro, 18 anos, adora os bailes na zona nobre: \u201cN\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o. Aqui, as op\u00e7\u00f5es s\u00e3o maiores. A comunidade \u00e9 s\u00f3 pra morar. Se quiser divers\u00e3o ou trabalho melhor, a pessoa tem que sair\u201d. A menina que est\u00e1 ao lado de Let\u00edcia sorri, mas avisa: \u201cN\u00e3o posso sair em foto. Tenho 16 anos e meu pai n\u00e3o sabe que estou aqui, acha que fui dormir na casa de uma amiga\u201d. Ela \u00e9 da Comunidade da Paz, na zona leste, e quer viver outra realidade. \u201cA gente v\u00ea TV e internet. No centro, as coisas s\u00e3o mais bonitas, tem mais oportunidades. Fa\u00e7o amigos e posso at\u00e9 arrumar namorado\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Promotores dos eventos, como Luciano Roberto Pereira, o Lu, tamb\u00e9m moram nas comunidades. Ele divide o tempo entre o trabalho como motoboy e o de promo\u00e7\u00e3o de festas na zona sul. \u201cTrabalho informando sobre as baladas e convidando a mo\u00e7ada. Passo a semana toda fazendo isso pra conseguir levar gente bonita e interessante das comunidades, homens e mulheres, pras festas\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Proibid\u00e3o? S\u00f3 na periferia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, ritmos como samba e rap enfrentaram discrimina\u00e7\u00e3o pela origem ligada a comunidades pobres e com presen\u00e7a abundante de negros. O funk \u00e9 a bola da vez, criticado pelos temas sexistas e por fazer a apologia das drogas e do crime, segundo os seus detratores. Pura hipocrisia, diz o historiador Wilson Hon\u00f3rio da Silva. \u201cO argumento moralista pesa muito de um lado, o da periferia. Nas \u00e1reas ricas, a coisa \u00e9 encarada com naturalidade. A cultura do pobre \u00e9 criminalizada quando n\u00e3o reproduz aquilo e do jeito que o sistema quer\u201d, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador lembra que o funk carioca chegou a S\u00e3o Paulo em 2001, com o sucesso da personagem Mel, de D\u00e9bora Falabella, na novela o Clone, da Rede Globo. Mel era uma dependente qu\u00edmica que frequentava bailes nos morros do Rio de Janeiro. \u201cEsse funk ultra sexualizado veio via Rede Globo. V\u00e1rias casas se especializaram em funk carioca e passaram a tocar algo que n\u00e3o tem nada a ver com o movimento funk dos negros estadunidenses. \u00c9 algo degenerado, mas que \u00e9 fruto do sistema em que vivemos\u201d, analisa Wilson Hon\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em S\u00e3o Paulo, o som entrou primeiro nos bairros ricos; os bailes de rua da periferia surgiram em 2005. \u201cAqui em Heli\u00f3polis, os bailes de rock, m\u00fasica lenta e depois rap, foram perdendo for\u00e7a no final dos anos 90. Vieram as baladas, eventos maiores. Os DJs come\u00e7aram a segmentar o som e alguns optaram pelo funk\u201d, relembra o DJ Reginaldo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a profissionaliza\u00e7\u00e3o, DJs come\u00e7aram a sair das comunidades para tocar nos lugares que pagassem mais. Para os moradores da periferia, sem dinheiro para ingressar em baladas fechadas, os bailes de rua eram a forma de conseguir divers\u00e3o.\u00a0 \u201cEntre 2005 e 2006, a Equipe M\u00e1quina, um grupo de DJs, alugava equipamentos e, quando tocava, reunia uma multid\u00e3o aqui. Disso, saiu o Bonde da Tr\u00eas, que tocava funk pra milhares de pessoas pelo menos uma vez por m\u00eas aqui em Heli\u00f3polis. Quem quisesse chegar, chegava. Sei que acontecia assim em outras comunidades tamb\u00e9m\u201d, conta Reginaldo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente, sons automotivos de alta pot\u00eancia transformaram carros de passeio em trios el\u00e9tricos sem a participa\u00e7\u00e3o de DJs. Os tunings, ve\u00edculos personalizados e preparados para reproduzir m\u00fasica num volume ensurdecedor, tornaram-se uma sa\u00edda econ\u00f4mica para a juventude que frequentava os funks de rua. \u201cA meninada se junta pra comprar um som de carro, pra ficar na comunidade e impressionar. Se tiram isso deles, v\u00e3o pros bairros chiques, descobrem esse mundo, se sentem o m\u00e1ximo. T\u00eam hist\u00f3ria pra contar no dia seguinte. Quando a gente sente na pele a diferen\u00e7a de tratamento que a policia d\u00e1 de um lado e de outro, quer ficar no bairro rico\u201d, comenta o promotor de eventos Luciano Roberto Pereira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nas ruas do centro, o funk rola solto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem mesmo a alega\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edcia tem que agir porque os bailes na rua incomodam os vizinhos resiste a um passeio no bairro da Liberdade, no centro de S\u00e3o Paulo, por exemplo. Ali, na rua Tagu\u00e1, atr\u00e1s das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), acontecem bailes quase todos os dias da semana. Em plena rua. O p\u00fablico \u00e9 formado pela classe m\u00e9dia, principalmente universit\u00e1rios da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com pedido de sigilo da identidade, um dos seguran\u00e7as da FMU conta que as festas s\u00e3o realizadas h\u00e1 anos em qualquer hor\u00e1rio e chegam a reunir duas mil pessoas. Apesar disso, ele jamais presenciou repress\u00e3o policial, pris\u00f5es ou autua\u00e7\u00f5es nas imedia\u00e7\u00f5es. \u201cTrabalho h\u00e1 anos aqui. \u00c0s vezes, \u00e9 at\u00e9 pior de dia. Os carros param nos bares e abrem os porta-malas com som no \u00faltimo volume. Tem menores de idade, muita bebida e drogas\u201d, destaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucas viaturas de pol\u00edcia rondam o local; rotineiramente, uma ou duas. Em geral, estacionam na esquina da rua e n\u00e3o interv\u00eam na aglomera\u00e7\u00e3o. \u201cVeio um programa de TV aqui e, no primeiro semestre deste ano, a PM vinha mais. No segundo semestre, a coisa piorou de novo. O pessoal come\u00e7a de manh\u00e3 e vai at\u00e9 \u00e0 tarde. \u00c0 noite, v\u00e3o das 21h \u00e0s 23h30, quando fecham os bares por causa da Lei do Psiu\u201d, observa o seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O som do funk n\u00e3o embala somente os alunos da FMU. \u00c0s sextas-feiras, \u00e9 comum vizinhos reclamarem do pancad\u00e3o sa\u00eddo dos alto-falantes dos carros de estudantes da Uninove, na Barra Funda, Universidade S\u00e3o Judas, na Mooca, e Mackenzie, no centro. Chamada por moradores, a PM vai aos locais e o som \u00e9 desligado. Quando a viatura vai embora, o barulho retorna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Uninove, o in\u00edcio dos bailes \u00e9 por volta de 20h. Carros ficam em fila dupla na avenida Dr. Adolpho Pinto e ligam os equipamentos de som. Em pouco tempo, a m\u00fasica toma conta da rua e dos alunos. Bares e cal\u00e7adas lotam. Apenas uma faixa da pista \u00e9 deixada livre para os ve\u00edculos. A festa segue at\u00e9 a madrugada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 os universit\u00e1rios da S\u00e3o Judas se concentram na Pra\u00e7a Maria C\u00e2ndida, na zona leste. Moradores dos arredores chegaram a fazer um abaixo-assinado contra o pancad\u00e3o. A PM ronda a \u00e1rea, mas permanece por poucos minutos. Aos incomodados, a Prefeitura diz que s\u00f3 fiscaliza ru\u00eddos em lugares fechados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o p\u00fablico \u00e9 de elite e o funk atrai milhares de pessoas \u00e0s sextas-feiras, fechando ruas tradicionais entre as regi\u00f5es da Consola\u00e7\u00e3o e de Higien\u00f3polis, um dos metros quadrados mais caros de S\u00e3o Paulo. Como os jovens das periferias, tamb\u00e9m buscam divers\u00e3o. O sexo rola dentro de carros com vidros escuros, mas as drogas s\u00e3o consumidas nas ruas. Al\u00e9m de n\u00e3o sofrer nenhuma san\u00e7\u00e3o policial, a festa algumas vezes conta com o apoio da Companhia de Engenharia de Tr\u00e1fego de S\u00e3o Paulo (CET) que fecha os acessos dos carros \u00e0s ruas para garantir a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Colaboraram Gabriela Allegrini e Maria Eug\u00eania S\u00e1<br \/>\nFotos de Maria Eug\u00eania S\u00e1 e Vinicius Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Moriti Neto e Vinicius Souza* Bailes na periferia de S\u00e3o Paulo s\u00e3o encerrados sob violenta repress\u00e3o policial, enquanto meninas s\u00e3o levadas de \u00f4nibus das comunidades onde moram para \u201canimar a festa\u201d nas baladas chiques. Sexta-feira \u00e0 noite, 20 de julho, periferia da zona sul de S\u00e3o Paulo. 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