{"id":21985,"date":"2016-05-15T13:22:11","date_gmt":"2016-05-15T13:22:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/?p=21985"},"modified":"2016-05-28T23:47:52","modified_gmt":"2016-05-28T23:47:52","slug":"falando-de-historia-sobre-ser-individuo-e-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/?p=21985","title":{"rendered":"Falando de Hist\u00f3ria &#8211; Sobre ser indiv\u00edduo e preto"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><a href=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Jaciana-Melquiades.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21986\" src=\"http:\/\/www.polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Jaciana-Melquiades.jpg\" alt=\"Jaciana Melquiades\" width=\"480\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Jaciana-Melquiades.jpg 480w, https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Jaciana-Melquiades-290x290.jpg 290w, https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Jaciana-Melquiades-300x300.jpg 300w, https:\/\/polifoniaperiferica.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Jaciana-Melquiades-144x144.jpg 144w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Por Jaciana Melquiades<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente briga por visibilidade e essa briga \u00e9 coletiva.\u00a0Pensando em um movimento individual que se conecta na coletividade, vemos diariamente pelo nosso caminho e principalmente na rede, trabalhos que tem objetivos comuns: promover a representa\u00e7\u00e3o negra na m\u00eddia, nos poderes, nos espa\u00e7os de exclus\u00e3o, na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento coletivo e organizado tem um hist\u00f3rico muito pouco conhecido e quase nada difundido. Quando pensamos nos movimentos de indiv\u00edduos que s\u00e3o somados e acabam dando vulto ao nosso caminhar, \u00e0s nossas conquistas, fica quase impercept\u00edvel. Como historiadora sempre me interessou esse movimento que parece individual e sem import\u00e2ncia. Esse movimento que parece ser pela sobreviv\u00eancia de si, mas acaba por garantir a sobreviv\u00eancia do N\u00d3S. Usando o gancho do 13 de maio, queria fazer uma digress\u00e3o&#8230; partir pro s\u00e9culo XIX:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA extin\u00e7\u00e3o do elemento servil pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades dos particulares em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente de tal modo que \u00e9 hoje aspira\u00e7\u00e3o aclamada por todas as classes em admir\u00e1veis exemplos de abnega\u00e7\u00e3o por parte dos propriet\u00e1rios. Quando o pr\u00f3prio interesse privado vem espontaneamente colaborar para que o Brasil se desfa\u00e7a da infeliz heran\u00e7a, que as necessidades de lavoura haviam mantido, confio que n\u00e3o hesitareis em apagar do direito p\u00e1trio a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o que nele figura, em antagonismo com o esp\u00edrito crist\u00e3o e liberal de nossas institui\u00e7\u00f5es\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Princesa Isabel, 13. 05. 1888.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em>Esse \u00e9 um dos trechos do discurso da Isabel, aquela que intitulam Princesa. Lendo esse discurso poder\u00edamos chegar a conclus\u00e3o de que a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o foi fruto de um processo homog\u00eaneo e oriundo exclusivamente de setores da elite senhorial, uma aspira\u00e7\u00e3o \u201caclamada por todas as classes\u201d e concretizada de forma pac\u00edfica. N\u00e3o haveria, neste sentido, interesses divergentes gerando conflitos entre as partes interessadas&#8230; A sociedade fica parecendo, assim, est\u00e1tica e conformada, esperando as determina\u00e7\u00f5es dos poderosos e bondosos monarcas, imbu\u00eddos do esp\u00edrito crist\u00e3o e liberal. Discurso. Tudo isso \u00e9 discurso dos que pretendiam construir uma \u201cverdade hist\u00f3rica\u201d pautada na branquitude, e continua sendo repetido e ensinado pelos que pretendem fazer a manuten\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios sociais herdados de uma ideologia racista (eficientemente popularizada e difundida).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quadro geral no Brasil ao longo dos anos oitocentos revela outra realidade. Quando a \u201cLei \u00c1urea\u201d foi assinada, conta-se que em m\u00e9dia 95% dos africanos j\u00e1 eram formalmente livres, alguns dos quais integravam parte das lutas abolicionistas e da elite intelectual. Uma elite intelectual preta organizada e tomando as r\u00e9deas do nosso processo de liberta\u00e7\u00e3o formal. H\u00e1 ainda um quadro que me encanta e fascina, que tem rela\u00e7\u00e3o com a\u00e7\u00f5es individuais e que impactaram a coletividade de forma absurda: fugas numerosas caracterizadas como maior a\u00e7\u00e3o de desobedi\u00eancia do pa\u00eds. Temos bibliografia que comprova esse rebuli\u00e7o. Ap\u00f3s 1789, uma ideia de liberdade espec\u00edfica, ligada \u00e0 luta armada e a\u00e7\u00f5es definitivas que finalizassem a escraviza\u00e7\u00e3o de uma vez, se espalharam pelo mundo, chegando na Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s de marinheiros, de homens e mulheres pretos e pretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aproxima\u00e7\u00e3o entre homens de diversas sociedades \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para a circula\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias, inclusive hoje. N\u00e3o consigo pensar em meio melhor. Admitir historicamente que homens e mulheres que seriam escravizados e estavam sendo transportados n\u00e3o entendiam o que estava acontecendo \u00e9 o que uma historiografia branca construiu como discurso. Mas quando conseguimos ampliar nossa lente e olhar de perto os movimentos de homens e mulheres que queriam a todo custo fazer a manuten\u00e7\u00e3o de suas vidas em liberdades, conseguimos ver o quanto a escraviza\u00e7\u00e3o foi sempre uma luta entre desiguais, mas com resist\u00eancia. Pensemos nos contatos entre esses homens e mulheres vindos dos mais diversos lugares de \u00c1frica e, j\u00e1 na metade d\u00f3 s\u00e9culo XIX, vindos dos mais diversos lugares da Am\u00e9rica Latina: ideias fervilhando, raiva pela liberdade cerceada, estrat\u00e9gias infinitas de liberta\u00e7\u00e3o e trocas, muitas trocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para contar uma historinha r\u00e1pida (e apenas umadas in\u00fameras hist\u00f3rias de resist\u00eancia preta) e que chegou aqui no Brasil causando mais estardalha\u00e7o, chegamos em 1805, e havia um ano que Jean Jacques Dessalines proclamara a independ\u00eancia do Haiti. Proclamou depois de muita luta que dizimou a popula\u00e7\u00e3o branca do ent\u00e3o Pa\u00eds. Avan\u00e7ando o s\u00e9culo XIX, os rumores do acontecido no Haiti circulavam pelo Brasil e contribu\u00eda para o aumento do medo da desobedi\u00eancia generalizada. As fontes que temos dispon\u00edveis pouco revelam sobre as formas como a id\u00e9ia de liberdade, vinda especificamente do Haiti por exemplo, fora apropriada e ressignificada por parte da popula\u00e7\u00e3o escravizada, mas h\u00e1 ind\u00edcios dos olhares da Elite. E aqui fa\u00e7o uma pausa e pergunto: como n\u00f3s, historiadoras pretas podemos contar nossa hist\u00f3ria, se as fontes que usamos sempre apontam o olhar dos homens e mulheres brancos e detentores dos recursos finaceiros? A gente l\u00ea o medo deles. Agente interpreta o excesso de cuidado. A gente acha as falas que denunciam as a\u00e7\u00f5es que eles julgavam perigosas: a\u00ed a gente acha nossas a\u00e7\u00f5es, nosso combate, nossa luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O massacre dos homens brancos na ilha de S\u00e3o Domingos (Haiti) n\u00e3o passou despercebido. As not\u00edcias sobre a aboli\u00e7\u00e3o no Caribe ingl\u00eas (1832) e principalmente nas col\u00f4nias francesas (1848) circulavam na imprensa e alarmavam a elite brasileira. Em an\u00fancios de jornais na Corte do Rio de Janeiro s\u00e3o comuns (pesquisa extensa de Fl\u00e1vio dos Santos Gomes) em an\u00fancios de fugitivos, especifica\u00e7\u00f5es sobre idiomas falados por homens pretos em fuga, j\u00e1 que muitos deles falavam ingl\u00eas e franc\u00eas. Estes homens e mulheres escravizados buscavam refugiar-se em navios viajando para outros pa\u00edses da Europa. H\u00e1 aqui a id\u00e9ia de rede, uma conex\u00e3o entre esses indiv\u00edduos, que se ofereciam ajuda m\u00fatua. Ajuda esta que tem rela\u00e7\u00e3o direta com colabora\u00e7\u00e3o local, particular e individual que impactou a coletividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta ponte com o passado me \u00e9 bastante \u00fatil para pensar (ou no m\u00ednimo problematizar) nossas rela\u00e7\u00f5es com a coletividade. Movimentos individuais conectados \u00e0 hist\u00f3ria \u00a0podem nos dar a dimens\u00e3o do poder transformador que temos e que passa despercebido. Nosso movimento ao longo da hist\u00f3ria em busca de autonomia, respeito e cidadania pode ser percebido nessas grandes mudan\u00e7as tendenciosamente atreladas \u00e0 \u201cbondade branca\u201d, mas neste texto espec\u00edfico, busco uma rela\u00e7\u00e3o entre as mudan\u00e7as radicais que as a\u00e7\u00f5es individuais promoveram no passado e o nosso movimento atual de busca por representatividade que passa pela media\u00e7\u00e3o do consumo de bens. Depois dessa viagem no passado, penso muito no nosso cen\u00e1rio hoje de busca por visibilidade e representatividade. Somos um grande coletivo de indiv\u00edduos e sujeitos pensantes e entender que nossas a\u00e7\u00f5es individuais fortalecem (ou quebram) a coletividade \u00e9 fundamental. A gente consegue visibilidade individual e, ao menos na teoria, \u00e9 a coletividade preta que garante a manuten\u00e7\u00e3o dessa representa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA gente cresce e tem o trabalho reconhecido fortalecendo e sendo fortalecido pela comunidade. Mas a gente precisa continuar esse fortalecimento que, mesmo sendo entre indiv\u00edduos, no somat\u00f3rio das a\u00e7\u00f5es, fortalece uma rede. Caso contr\u00e1rio, seremos desmantelados&#8230; nossa for\u00e7a se perde se ela n\u00e3o \u00e9 de n\u00f3s para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As grandes marcas est\u00e3o descobrindo esses pequenos poderes. O poder que temos de fazer nosso dinheiro circular internamente, o poder que temos de reorientar o mercado (visto que somos maioria populacional), o poder que temos de reorientar as demandas nas empresas. Se n\u00e3o tomarmos cuidado, vamos sendo todos cooptados pela ind\u00fastria que cria desejos e nos faz, individualmente, consumir o que a m\u00eddia nos diz que precisamos consumir: se n\u00e3o tivermos cuidado, somos cooptados a TER os bens de consumo que \u201cnos conferem Status\u201d e assim seguiremos colocando \u00f3leo na engrenagem racista que, sob a desculpa de contribuir com o empoderamento preto, nos usa como outdoores em nossas comunidades, nos fazendo de estandartes captadores de recursos. E s\u00f3. Tem aqui um Monte de assunto que precisa ser desdobrado: representatividade, consumo, comunidade, entre tantos. Vamos falando sobre hist\u00f3ria e muito. Saber como nos constitu\u00edmos \u00e9 fundamental para nosso fortalecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/jacianaa?fref=nf\">Jaciana Melquiades<\/a><\/strong> &#8211; \u00c9 Historiadora, Educadora, Menina Black Power, Produtora \u2022 Produ\u00e7\u00e3o Odarah Bazar e Criadora de sonhos na Era uma vez o amundo e assina a coluna Falando de Hist\u00f3ria no Polifonia Perif\u00e9rica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Princesa Isabel, Fala do Trono: 13 de maio de 1888. In: Moura, Roberto M. 1947- Tia Ciata e a Pequena \u00c1frica no Rio de Janeiro, cap\u00edtulo 2: De Salvador para o rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jaciana Melquiades A gente briga por visibilidade e essa briga \u00e9 coletiva.\u00a0Pensando em um movimento individual que se conecta na coletividade, vemos diariamente pelo nosso caminho e principalmente na rede, trabalhos que tem objetivos comuns: promover a representa\u00e7\u00e3o negra na m\u00eddia, nos poderes, nos espa\u00e7os de exclus\u00e3o, na vida. 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