Mc Pernambucana Lady Laay fala sobre sua excelente música ‘DISSrespeito à Mulher’. Confira a entrevista

No final do mês de janeiro a Mc Pernambucana LADY LAAY nos presenteou com um trabalho digno de todas as reverencias no que tange uma critica consistente, potente e inteligente ao machismo, ao patriarcado e a postura da sociedade doente que se tornou extremamente teórica e nada prática. “Dissrespeito à Mulher” vai muito além de uma diss, pois a contradição presente em “Sulicidio” está presente no Hip Hop como um todo e porque não dizer na sociedade. Afinal, atos de invisibilização, boicote, desrespeito e menosprezo ao trabalho feminino não são exclusividade da cultura Hip Hop, mas são reflexo de uma sociedade machista. Mas o principal ponto da reflexão de Lady Laay é apontar distância entre o discurso e a prática, ou seja, a não correspondência entre ideias e fato enraizado na sociedade. A contradição presente em “Sulicido” está presente em inúmeras canções do rap nacional e em outros estilos musicais. Eis ai a importância da reflexão de Lady Laay. É preciso enxergar essa dimensão da critica da Mc Pernambucana e refletirmos sobre o quanto nossos atos se distanciam de nossas ideologias. Dissrespeito é um grito, mas acima de tudo uma profunda reflexão antropológica. Daria um filme! Confira a entrevista concedida pela Mc Pernambucana ao Polifonia Periférica.

Lembrando que a produção é assinada por DJ Novato. Produtor que abraça e contribui com a causa feminina

PP – Você declarou em seu perfil de uma rede social que você não curte Diss. O que te motivou, ou melhor, o que mais te incomodou e te fez mudar de postura e fazer Dissrespeito?

Lady Laay –  Sempre vi o rap como uma ferramenta pra dar voz e subverter a realidade difícil da periferia e outras parcelas oprimidas pela sociedade, por isso nunca curti músicas de meros ataques vazios a outras pessoas. Porém, depois de ver o quanto esses caras repetiam (ou faziam até pior do que) as mesmas posturas que eles alegam condenar em sulicídio, como por exemplo: ignorar, invisibilizar, escantear – para com as mulheres do próprio nordeste, resolvi dar-lhes uma lição, os fazendo provar do próprio veneno. DISSrespeito à Mulher é muito mais que uma diss, é denúncia, desabafo, um grito de todas e por todas nós, e principalmente: para mostrar o quanto estão enganados ao nos subestimar.

PPVocê foi extremamente feliz ao mostrar em Dissrespeito algo muito comum no rap que é a distância entre o discurso e a prática. Ou seja, eles criticam algo, mas na prática fazem o que tanto criticam. O que você tem a dizer sobre essa prática tão comum no rap, mas que também está enraizada na sociedade como um todo?

Lady Laay – Acho que a questão é que boa parte tem cantado o que vende, o que vai virar hit, e não o que ele de fato vive, vivencia e pratica.. O fato é que essa mesma ‘boa parte’ dos mcs tem perdido a essência, tratando apenas como produto, não tem mais a consciência de que deveriam ser e dar exemplo. Aquela coisa que a rua preza: conduta, postura e respeito, anda faltando muito, atualmente as pessoas preterem essas 3 coisas por outras três: status, fama e grana. E como você disse, isso é uma atitude que está bem intrínseca na sociedade como um todo mesmo, a maioria parece seguir aquele ditato:”Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!”.

PP – A proposta de Sulicidio era dar visibilidade ao Rap da região Nordeste. Sabemos que para as mulheres nada ou pouco mudou. O objetivo foi alcançado? Em sua opinião, surtiu algum efeito sobre o preconceito e a discriminação que se tem sobre o rap da região nordeste?

Lady Laay – Como eu digo na música: “Trouxe visibilidade pra cá? Só pros caras, e não pra nós.. Mulher ainda tá no escanteio, e ainda tentam calar nossa voz!”. Não questiono ou critico a luta pela desmonopolização do mercado fonográfico (tanto do rap, quanto em todos os gêneros), é fato inegável que o sul/sudeste tem um certo previlégio. O que eu pontuo e critico na música é essas mesmas pessoas que reclamam de invisibilização e desrespeito ao nordeste, fazerem o mesmo (e ainda pior) com as mulheres do próprio nordeste, o que acho no mínimo hipócrita, e reforça que não é só machismo, já é uma questão de misoginia mesmo. Se trata de aversão total à mulher estar ocupando os mesmos espaços, é se negar a reconhecer a existência e resistência da mulher na cultura hip-hop, e em todos os âmbitos da sociedade.

Lady LaayPP – Em Dissrespeito você se levanta maravilhosamente contra os atos de invisibilização, boicote e desrespeito ao trabalho feminino. No entanto, percebemos, infelizmente, que as mulheres reproduzem essa relação entre si. A Lívia Cruz sabiamente em “Ordem na Classe”  chama atenção para essa questão ao dizer: “Nós junta é um arregaço. Pena que elas ainda não se ligaram”. O que falta para as mulheres se ligarem?

Lady Laay – Nós mulheres desde a infância somos ensinadas que “mulher é falsa”, que temos que disputar entre nós: por homem, por quem é a melhor/mais bonita, principalmente no atual cenário da cultura hip-hop onde nas line-ups nunca tem atração feminina, mas quando tem,  só põe uma (como uma cota – só para dizerem que não são machistas), o que faz com que algumas se vejam como rivais, disputando essa “cota”, e etc.. Então não é culpa da mulher agir assim, é preciso muita desconstrução pra podermos nos libertar disso que nos foi pregado com um único intuito: nos enfraquecer! Porque sabem que juntas somos um perigo (no bom sentido da palavra), que juntas podemos fazer coisas grandiosas, inclusive e principalmente nos empoderar e nos apoderar de si mesmas, o que é um grande problema pra quem quer que permaneçamos caladas, controláveis, e submissas. Todavia, ao meu ver, caráter é uma questão inerente ao gênero. Tem mulher boas e ruins, homens bons e ruins, então infelizmente algumas acabam agindo mal porque é referente ao caráter, mas em suma boa parte das mulheres ainda se enxergam como rivais por culpa do próprio machismo contido e pregado na sociedade, e todas nós, até mesmo as que já são conscientes disso, estamos em constante descontrução, e auto-policiamento pra não reproduzirmos isto. Mas aos poucos isso está mudando, e estamos todas  nos ligando.

PP –  Invisibilização, boicote e desrespeito ao trabalho feminino é algo presente e indiscutível rap. Você sente esse tratamento também por parte da mídia (sites, blogs e afins) do rap? Até que ponto a mídia especializada em Hip Hop contribui para o machismo na cultura?

Lady Laay – Sinto sim, bastante. O quadro está mudando porque está crescendo o número de mulheres colaboradoras nesses portais, e também porque alguns deles tem homens que são exceção, e não fazem essa distinção por gênero. Mas em sua maioria, trabalhos femininos são ignorados, quando não boicotados (como já aconteceu comigo diversas vezes, onde colaboradores homens tentaram boicotar para que as minhas matérias não saíssem), e não só pelos colaboradores dos portais, mas também pelo próprio público, que como digo na música: “Quando vê que o som é de mina, nem sequer play dá.. Nem conhece, já vem logo julgar, subestimar, deslegitimar, buscando defeito pra criticar!”. Ou seja: boa parte dos trabalhos femininos são ignorados a tal ponto que as pessoas nem sequer ouvem, por subestimar devido a se tratar de uma mulher, e outros que ouvem já na sede de achar algum defeito para zombar/criticar. Volto a repetir, é mais que machismo, já é uma questão de misoginia.

PP – Com tantos boicotes e desrespeito, como o rap feminino sobrevive em particular na sua cidade Recife?

Lady Laay – Nós não apenas existimos, como RESISTIMOS (no sentido literal da palavra). Temos tentado ser cada vez mais independentes e autossuficientes. Temos tentado conscientizar e mudar a mentalidade dessas pessoas acerca dessas atitudes, mas nada de ficar dando murro em ponta de faca insistindo para que nos aceitem não. Estamos formando nosso próprio público, pessoas que se identificam (de ambos os gêneros) que tem maturidade pra discernir que rap não tem sexo. A mensagem chegará a quem de fato merece ouvi-la, e é esse público que de fato nos importa.

PP – Deixa uma mensagem final

Lady Laay – Gostaria de agradecer muito ao Polifonia Periférica pelo interesse no trabalho, por ter entendido a mensagem, proposta e intuito do mesmo, e parabenizar pelas perguntas tão bem elaboradas.

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