Políticas raciais – para misturar de verdade

Entrevista do professor Giuseppe Cocco concedida ao Olhar Virtual – Jornal virtual e semanal da Coordenadoria de Comunicação da UFRJ. 2007

Por Aline Durães

“Ninguém pode negar que, no Brasil, há uma relação entre ser pobre e ser negro. Quanto mais pobres, mais negros. Não manda porque é branco, mas quem manda é branco. É hipocrisia e cinismo afirmar que o preconceito é social. O preconceito existe em todas as direções. O racismo não é uma relação abstrata. A inferiorizarão das pessoas por causa da cor é ligada a uma dinâmica da exploração, ou seja, tem um viés material. Não há contradição entre o fato de que haja preconceito social e de que tenho embutido nisso uma dinâmica racial.

Muitos insistem em dizer que uma política de ação afirmativa no Brasil é impossível, porque, na verdade, o Brasil é um país mestiço, em que não há branco ou negro, onde todos são pardos. Quando, na verdade, sabemos muito bem quem é branco. Essa idéia de que somos todos pardos não denota uma mistura. A mistura implica todas as cores. A redução da mistura ao fato de que seríamos um conjunto cinza é uma operação do poder, que busca construir a idéia de povo, de nação em nome da qual os interesses de alguns possam ser aceitos como se fossem de todos.

Esse discurso do conjunto cinza nega a diferença. Pega a potência da miscigenação e a reduz ao nada. Em Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, por exemplo, a exploração do branco sobre o negro se transforma em uma grande harmonia. Com os anos, a miscigenação virou valor nacional; tornou-se comum o discurso de que somos todos pardos, temos todos um pé na cozinha.

A ação afirmativa é fundamental, não porque vai colocar brancos contra negros, mas porque ela mistura de verdade todos os níveis. Ela serve para eu chegar a um hospital e não saber quem é enfermeiro e quem é médico apenas pela cor. A ação afirmativa é uma dinâmica que amplificará a estrutura em todos os níveis e com isso poderá combater um dos elementos da reprodução da desigualdade social no Brasil, que é o seu caráter racial.”

Fonte: Olhar Virtual

Giuseppe Cocco é doutor em História Social pela Universidade de Paris I, professor da UFRJ, editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes (Paris). Participa da Rede Universal Nômade. PublicouTrabalho e cidadania (Cortez, 2000) e, com Antonio Negri, Global: biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Record, 2005), entre outros livros e artigos.

Assista ao videoclipe – Cotas. Essa conversa não é sobre você

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